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Análise: Trials of the Blood Dragon (Multi) é uma viagem psicodélica

Acelere e esmague os ciborgues comunistas na quarta guerra do Vietnã ao melhor estilo dos anos 1980.


Em 2013, quando analisei Far Cry 3: Blood Dragon, eu disse que o game  é “uma divertida e bem-humorada adaptação (e criação também) de um jogo de sucesso para um mundo bizarro, sombrio e colorido, permeado de perigos e aventura para se passar muitas horas explodindo ciber-robôs na frente do computador”. Posso dizer que parte dessa afirmação pode ser dita em relação ao seu spin-off de spin-off (pois Blood Dragon já era um spin off de Far Cry 3). Trials of the Blood Dragon faz uso do aspecto mais interessante de seu antecessor: o visual cyber-punk neon dos anos 1980. Porém, ele falha quando tenta criar uma aventura que não passa de um teste de paciência.

Direção perigosa

A proposta de Trials of the Blood Dragon tem uma abordagem mais leve do que o jogo no qual se inspirou e abusa do visual extravagante do mundo neon pós-apocalíptico de Rex "Power" Colt. Desta vez, o jogador não controla o comandante de guerra, mas seu casal de filhos, Roxanne e Slayter. Com o pai aposentado, chegou a hora desses jovens botarem pra quebrar! Além dos gráficos cheios de luzes piscantes (tanto que o game alerta ao jogador sobre os perigos para pessoas que sofrem de epilepsia), Trials é uma coleção de desafios embalado em uma trama muito clichê, que nem por isso deixa de ter o seu charme.
Roxanne e Sayter são os astros dessa aventura (mais americana, impossível!).

Trials of the Blood Dragon combina os elementos de corrida de obstáculos com segmentos de stealth de forma brilhante no estilo plataforma, mas não quer dizer que eles sejam bons isoladamente. Na parte de corrida, a dificuldade das pistas é crescente e os controles não auxiliam o jogador. É possível acelerar ou frear a moto, além de controlar sua inclinação com os analógicos, entretanto os controles são muito sensíveis. Enquanto eu gritava para o game por ter morrido pela décima quinta vez em uma parte do percurso, via como o movimento do meu personagem era desajeitado ao pilotar a moto. Parecia que estava jogando QWOP, só que com gráficos melhorados.
Não se entusiasme muito nos saltos ou pode se arrebentar ao pousar.

Não existem níveis de dificuldade para se escolher e os estágios possuem uma curva crescente de complexidade. O "hub" do game é confortavelmente ajeitado de forma que as fases estão em pôsters na parede do quarto das crianças (cheios de referências ao passado). Felizmente, Trials abusa dos checkpoints para aqueles que, como eu, não conseguem passar de um trecho específico e ficam horas tentando descobrir a melhor posição para a moto. Nesse ponto, os desafios de veículos (sim, você não usa apenas a moto, mas também tanques e até mochilas a jato no espaço) fazem você se sentir em um game ao estilo Infinite Runner, como Bit Trip Runner, só que com muitas luzes e tiros para todos os lados.
O hub do game é uma homenagem ao passado brega.

Os segmentos de stealth — se é que se pode chamar essa abordagem assim — são os mais entendiantes do jogo. A intercalação deles entre os desafios de veículos é ótima para variar a mecânica do game e não deixar que o jogador se irrite demais por morrer tanto. Porém, nas partes em que você precisa percorrer o cenário atirando em inimigos antes que eles atirem em você não exigem quase nenhuma estratégia por parte do jogador. Os combates são simples, para não dizer ridículos. Além disso, os controles são, mais uma vez, desajeitados, fazendo o personagem correr muito ou pular alto demais em certos trechos.
Os segmentos à pé possuem pouco stealth e são estranhos.

O sangue do dragão

Apesar da frustação da mecânica de tentativa, erro e repetição dos trechos de moto, esses são os mais divertidos do game. O show de luzes ao fundo combinado com a riqueza de detalhes dos cenários consegue amenizar um pouco da frustração pelas falhas cometidas. Além disso, a música é tão boa quanto a do Blood Dragon original, com todos os sons clássicos dos anos 1980 misturados com uma leve batida dos anos 1990. Para quem viveu a época, jogar com fones de ouvido é um prato cheio para a nostalgia.
Um show de luzes e sons!

Sobre a trama do game, assim como no Blood Dragon original, ela é tão clichê quanto se poderia esperar de um filme brega de ficção cientifíca. O problema era que, no primeiro game, você ainda conseguia se interessar pela história por causa dos diálogos entre Rex e a Doutora Darling, sua futura esposa, que davam um certo carisma ao enredo. Porém, em Trials, o mesmo não acontece. Rex até faz algumas aparições durante a história e seus filhos tentam desesperadamente imitar seu estilo, mas não conseguem arrancar um riso sequer do jogador.
A trama tenta conseguir algumas risadas, mas falha.

Trials of The Blood Dragon é um spin-off perfeito para aqueles que adoraram a atmosfera de Blood Dragon e desejam um desafio a mais (mesmo que ele seja frustrante em certos momentos). Apenas aprecie o visual, a música e a ação eletrizante que rola no fundo do cenário enquanto você tenta controlar a sua moto e atingir o objetivo final do estágio. Ah, e não estranhe quando um comercial de bonecos de ação ou de salchichas aparecerem do nada, como se a transmissão estivesse com problemas. Gravar vários programas em uma mesma fita cassete é um prazer estranho que muitas crianças e jovens de hoje nunca conhecerão.
Bonecos de ação vendidos separadamente.

Prós

  • Visual único;
  • Atmosfera retrô-brega.

Contras

  • Controles da moto muito sensíveis;
  • Movimentação de personagem estranha;
  • Segmentos de stealth pouco trabalhados.


Trials of the Blood Dragon — PC/PS4/XBO — Nota: 7.0
Versão utilizada na análise: PS4

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Luís Antônio Costa é graudado em Ciência da Computação pela UFRGS. Apaixonado por games desde que ganhou seu primeiro Master System e conheceu Sonic, também é amante da ciência e um devorador de livros. Além do GameBlast, também faz alguns textos para o Medium e pode ser encontrado no Facebook e Twitter.

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