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Análise: Sherlock Holmes: The Devil's Daughter (Multi) é a prova de que em time que está ganhando não se mexe

Sequência de Crimes and Punishments apresenta ótimas novidades e traz aquilo que já esperávamos, incluindo os erros.


É difícil encontrar alguém que não conheça o detetive Sherlock Holmes. O universo criado por Arthur Conan Doyle tem sido muito explorado em diversas mídias, mas, curiosamente, quase nenhum jogo havia conseguido trazer esse mundo aos videogames de maneira satisfatória. Isso mudou com a série de jogos criada pela Frogwares, The Adventures of Sherlock Holmes, e especialmente com Crimes and Punishments (Multi), game lançado em 2014 que faz parte da série e que foi um dos jogos de maior sucesso do detetive. Por conta disso, o anúncio de Devil's Daughter causou muita expectativa nos fãs e nos deu a esperança de que teríamos um jogo superior àquele de 2014. Será que nossas expectativas foram atendidas?

Mistérios para todos os gostos

Devil's Daughter traz tudo o que já havíamos visto em Crimes and Punishments. Isso pode até parecer ruim, afinal, uma sequência que se assemelha demais à seu antecessor é sempre vista com maus olhos. Porém, essa semelhança é justamente o grande trunfo do game, que se aproveita de tudo o que deu certo no jogo anterior (e o que deu errado também, infelizmente), mas traz algumas novidades bastante interessantes que justificam sua existência.

Comecemos falando sobre o enredo e seus personagens. Antes disso, porém, vale destacar: se você conhece Sherlock Holmes apenas pelos filmes mais recentes ou pela série da BBC, vai perceber que o Sherlock de Devil's Daughter não se parece muito com aqueles interpretados por Robert Downey Jr. ou Benedict Cumberbatch. Isso porque a desenvolvedora Frogwares vem tentando reproduzir fielmente o universo de Conan Doyle, e faz isso com maestria. Tanto os personagens (como o próprio Sherlock, o dr. Watson e o inspetor Lestrade) quanto a trama em si serão  familiares para aqueles que já leram os livros, mas também serão bastante agradáveis para os que estão conhecendo a série pela primeira vez.

Assim como no título anterior, aqui você precisa usar suas exímias habilidades detetivescas para investigar cinco casos. Cada um deles apresenta uma trama independente, mas que se relaciona de uma maneira quase imperceptível com as demais (o que é ótimo para aqueles jogadores que precisam deixar o game de lado por alguns dias). Enquanto progride na resolução dos casos, você acompanha a trama principal de toda a narrativa, que diz respeito à vida de Sherlock Holmes e de sua misteriosa filha, Kate. Funciona mais ou menos como uma série televisiva, mas sem a pretensão de ser uma.

E é aí que o jogo acerta e peca ao mesmo tempo. Apesar do enredo ter um bom desenvolvimento durante o game e deixar o jogador instigado a saber mais, seu desfecho acaba pecando por conta do encerramento abrupto e pouco convincente, diferente do que acontece em Crimes and Punishments. O mesmo se aplica às missões realizadas: apesar de serem bastante interessantes, acabam ficando um pouco atrás dos casos apresentados no game anterior. Mas isso não chega a ser um problema, principalmente se você estiver jogando o game sem conhecer absolutamente nada dos antecessores, e essa é uma grande sacada do título; Devil's Daughter, apesar de ser uma sequência, consegue ser aproveitado em sua totalidade pelos novatos na série.

Outro aspecto que vai atrair a atenção de muitas pessoas para o jogo é a presença de legendas em português pela primeira vez na série, principalmente porque os games anteriores, por apresentarem textos em inglês e exigirem leitura constante, acabavam afastando os jogadores que não dominavam o idioma. Isso não é mais um empecilho em Devil's Daughter, e se aproveitar do título no nosso idioma nativo torna-se uma experiência muito mais prazerosa.

Brincando de detetive

A mecânica de resolução dos casos não mudou absolutamente nada (o que é ótimo, diga-se de passagem), exceto por algumas adições muito bem-vindas. Por meio da perspectiva em terceira pessoa, você vai explorar ambientes, investigar arquivos e coletar pistas ao mover um cursor sobre as áreas de interesse. É uma espécie de point and click em terceira pessoa muito semelhante ao que já vimos em jogos da Telltale, como Walking Dead (Multi) e The Wolf Among Us (Multi).

Ao encontrar uma pista, ela será acrescentada a uma espécie de tabuleiro onde o jogador precisará linká-la à outra pista encontrada anteriormente para, assim, criar uma dedução. Essa dedução aparecerá em um local que representa a mente de Holmes, onde será preciso conectá-la à outras deduções para formar um raciocínio exato sobre algo e, assim, julgar os fatos e encontrar os culpados.

Parece complexo, é verdade, mas na prática esse sistema é bem simples e traz um leque de possibilidades, pois é possível formar diversos tipos de raciocínios diferentes e chegar a diversas conclusões em um mesmo caso, inclusive com a possibilidade de acusar uma pessoa injustamente. No final de um desses casos, a solução correta é apresentada ao jogador, que decidirá se deve manter a sua decisão ou corrigir seus erros.

Além disso, os interrogatórios e as análises também estão presentes, mas com algumas ótimas novidades. Ao ser apresentado a uma vítima ou a um suspeito, a câmera "congela" para que o jogador possa analisar e traçar um perfil psicológico daquela pessoa por meio de sua aparência física. Porém, ao contrário do título anterior, Devil's Daughter conta com diversas opções de análise para que você utilize o raciocínio e chegue à conclusão correta. Por exemplo: ao constatar que a pessoa está abatida fisicamente, você deve deduzir se essa condição se deve à noites mal dormidas ou a alguma doença. Avaliar corretamente um indivíduo é essencial para quem busca a solução correta para o caso, e um palpite errado pode atrapalhar as investigações.

Esses sistemas já funcionavam muito bem em Crimes and Punishments e aqui conseguem ser ainda melhores. Apesar das investigações serem lineares, você tem a liberdade de escolher qual local quer visitar primeiro e também pode decidir se deve encerrar um caso em um certo momento ou se deve procurar por mais pistas. O game sempre guiará o jogador por meio das pistas, que indicarão os locais que devem ser visitados, mas nunca irá tirar o seu poder de escolha e a sensação de dever cumprido ao encerrar um caso.
Contudo, quem achar que tudo está fácil demais ficará feliz ao saber da existência de um modo de jogo inédito na série que dificulta o trabalho do jogador ao tirar alguns recursos durante as investigações e exigir maior raciocínio durante os puzzles.

E falando em puzzles, eles continuam bastante desafiadores e criativos, exceto por alguns que falham em introduzir os enigmas ao jogador. Muitas vezes, você vai ficar totalmente perdido durante um quebra-cabeça, em ambos os níveis de dificuldade, e acabará usando mais o processo de tentativa e erro do que a lógica para solucioná-lo. Isso quebra o ritmo do jogo e deixa a experiência um pouco frustrante em alguns momentos.

Novidades boas e antigos problemas

Para sair um pouco da mesmice da lógica e dedução e deixar a experiência mais diversificada, a produtora incluiu diversas mecânicas inéditas que, aliás, eram a grande promessa do novo título. Você vai encontrar diversas sequências em que precisa seguir alguém furtivamente (nos moldes de Assassin's Creed), momentos de ação e até quick time events. Essa mescla de gêneros faz muito bem ao game e o torna menos maçante, mas, em alguns momentos, elas acontecem tão inesperadamente que te pegam de surpresa e o induzem ao erro, obrigando-o a repetir tudo outra vez. 

Além disso, as mecânicas acabam sendo prejudicadas pelo fraco design das fases e pela movimentação travada dos personagens, algo que já era marcante no primeiro jogo e que não teve grandes melhoras aqui. Experimente a irritante sequência da perseguição na floresta, no primeiro caso do jogo, que você saberá do que estou falando.

Os outros problemas que já ocorriam desde Crimes and Punishments, como os longos loadings, a demorada renderização de cenários e as quedas de frames, também continuam bastante presentes.

"E as barreiras invisíveis do primeiro jogo?", você deve estar se perguntando nesse momento. Sobre elas, tenho duas notícias, uma boa e outra ruim; a boa é que elas quase não existem mais e agora você tem uma Londres maior e menos linear para explorar. A má notícia é que isso gerou outro problema: a falta de interatividade nos cenários. Muitas vezes você vai apenas andar por ruas extensas que não têm nada a oferecer, nem mesmo um diálogo com um NPC, o que nos leva a pensar se não seria melhor se a desenvolvedora tivesse optado por continuar com as paredes invisíveis e investisse mais na melhoria dos erros anteriormente citados.

Apesar disso, o lado positivo de Sherlock Holmes: The Devil's Daughter consegue superar todos os seus pontos negativos. Mesmo com novas mecânicas e um gameplay mais diversificado, o game ainda foca bastante na lógica e na dedução, saindo bastante da linha dos jogos atuais e sendo fortemente indicado para aqueles que buscam algo nesse estilo. Não que o título não seja indicado para quem curte tiros e explosões, mas, ao contrário da maioria dos jogos, aqui você irá investigá-las, e não causá-las.

Prós

  • Universo de Sherlock Holmes fielmente representado no jogo;
  • Gameplay divertido e mais variado que o game anterior;
  • Maior liberdade ao jogador;
  • Puzzles criativos;
  • Gráficos melhorados;
  • Legendas em português.

Contras

  • Problemas no desempenho do jogo, como loadings demorados e quedas de frames;
  • Falta de interatividade nos cenários;
  • Enredo que, apesar de ser bom, não supera o de Crimes and Punishments.
Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter — PS4/XBO/PC — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Jaime Ninice 
July Dourado é aspirante a jornalista e redatora no GameBlast. Sua paixão por games começou com o Nintendo 64 e só tem crescido desde então. Além dos games, também é viciada em séries de TV e gatos.

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