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Análise: ADR1FT (PC) mostra o conflito entre tecnologia, realismo e um bom jogo

ADR1FT implora para ser experimentado em realidade virtual — mas será que se sustenta como um jogo normal?



O surgimento da realidade virtual como uma possibilidade viável para o público geral trouxe ao mundo dos videogames a oportunidade de criar jogos e experiências muito focadas em sonhos específicos das pessoas. Imagino que todos, algum dia, já pensaram em ser astronautas. Afinal, poucas coisas presentemente possíveis nesta pedrinha chamada Terra devem ser tão fascinantes do que vê-la de órbita. Flutuar numa estação espacial, sentido todas as consequências da vida em gravidade zero enquanto admira nosso planeta, pensando tanto na imensidão dele perante você quanto em sua minusculosidade perante o resto do universo.

Apostando nesse sonho, a desenvolvedora Three One Zero lançou ADR1FT (PC), um dos primeiros jogos disponíveis para o Oculus Rift. Infelizmente, eu não tenho um headset de realidade virtual (além do Google Cardboard) disponível para experimentar um jogo desses em sua forma mais impressionante, mas fiz o que pude. Apaguei as luzes, iniciei o jogo, aproximei o monitor do meu rosto, coloquei as configurações gráficas no máximo e fiz minha placa de vídeo chorar um pouco. Em pouco tempo, estava imerso naquela estação espacial, sentindo-me como uma Sandra Bullock à procura de tanques de oxigênio (mas sem um George Clooney pra me acompanhar).


Tirando o fôlego

No começo, a falta de oxigênio pode ser realmente agonizante. Na primeira vez que me encontrei num ambiente aberto (do lado de fora da estação espacial), ainda não havia aprendido a interpretar o mapa no lado esquerdo da tela, de forma que tentei me impulsionar diretamente ao meu objetivo. Após morrer asfixiado, percebi que não tinha sido uma boa ideia. Quando tentei novamente, prestei mais atenção ao ambiente e percebi que o level design de ADR1FT é mais óbvio do que inicialmente aparentava ser. Oras: há um limite de quanto espaço é possível percorrer de uma vez, então sempre deve-se ter tanques de oxigênio guiando o caminho correto.

ADR1FT é um raro exemplo de jogo que aproveita completamente o mundo 3D criado para ele — sem gravidade, eu eventualmente me desprendi da ideia de cima e baixo absolutos e comecei a pensar nisso sempre de forma relativa ao meu personagem. Isso se torna um problema na hora de adaptar esse mundo para um mapa 2D, mas eventualmente consegui entender a ideia dele e então usá-lo para seguir a trilha de tanques que me levaria ao próximo objetivo.



O mundo construído para ADR1FT parece representar um conflito entre os desenvolvedores. Por um lado, a intuitividade do level design é frequentemente deixada de lado para permitir que a estação espacial pareça um lugar onde pessoas realmente viveriam; por outro, é muito claro que os componentes da estação — e até seus destroços — são posicionados de maneira artificial para favorecer a progressão do jogador. De qualquer maneira, raramente o mundo aproveita as mecânicas de controle dadas ao jogador. É possível se movimentar em qualquer direção, além de girar sobre o próprio eixo, mas raramente isso é necessário — basta mexer a câmera para onde se quer ir e mover o analógico para a frente. Não houve um momento em que fosse crucial usar a inércia para economizar oxigênio nem girar para acompanhar algum elemento da estação.

Do incrível para o normal

Após aumentar a capacidade de oxigênio da roupa, a tensão para encontrar tanques é muito diminuída. A partir desse ponto, grande parte do jogo envolve navegar a estação de forma rotineira e ativar os computadores certos. Os visuais, no começo surpreendentes, se tornam rotineiros. Ou seja: ADR1FT fica chato. Em detrimento à imersão, passei a ouvir podcasts enquanto jogava. Com um entretenimento extra, o ato de passear pela estação espacial era agradável o suficiente, mas ficou claro que não haveria mais surpresas para mim ali.



ADR1FT esperava que eu me importasse com a tripulação da estação. Todos eles são personagens que não foram apresentados antes de suas mortes durante o acidente, então não senti vontade nem necessidade de empatizar com eles. Listas de emails em seus computadores pessoais, dispositivos contendo mensagens de voz gravadas por eles… Já vimos esses métodos de exposição em outros jogos, e é algo que raramente funciona como esperado. Quando estou explorando os destroços de uma estação espacial em 2037, ler e-mails alheios parece ser a atividade menos empolgante possível.

Em realidade virtual, tenho certeza que ADR1FT é impressionante o suficiente para manter alguém imerso por um bom tempo — vejo-me, por exemplo, passando algumas horas passeando sem propósito naquele mundo. Infelizmente, o jogo não se desenvolve o suficiente para ser uma experiência realmente interessante. Limitado por sua repetitividade e pela falta de criatividade em explorar seu mundo e suas mecânicas, ADR1FT poderia ser fantástico, mas acaba não passando de uma demonstração de conceito para realidade virtual.

Prós

  • Visuais de tirar o fôlego;
  • Exemplo do que é possível em realidade virtual.

Contras

  • Conflito entre realismo e bom level design;
  • Progressão do jogo se torna repetitiva rapidamente;
  • Enredo não dá motivos para se importar com os personagens.

ADR1FT — PC — Nota: 6.5

Revisão: Bruno Alves

Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do GameBlast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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