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Análise: Stardew Valley (PC) e sua contemplação quieta

Videogames como mídia podem fazer muitas coisas. Normalmente, realizações de fantasias de poder são... (por Dácio Augusto em 13/04/16, via GameBlast)


Videogames como mídia podem fazer muitas coisas. Normalmente, realizações de fantasias de poder são os lugares mais comuns, por isso é sempre interessante ver quando algo sai dessa linha. Ao passo que queremos realizar nossas fantasias que são impossibilitadas pela vida real, muitas vezes situações que nos passam experiências diferentes permitem um sentimento melhor do que a simples fantasia de poder. Stardew Valley é uma dessas experiências. O jogo pega a fórmula que fez de Harvest Moon um sucesso — a história de um garoto herdando uma fazenda e começando uma nova vida — e consegue trazer conteúdo suficientemente novo para ser algo único que executa tudo que o seu antecessor tinha de forma melhor.


Desde o sistema de plantações, que pega do básico de plantar e regar ao mesmo tempo que é expandido com a possibilidade de processar os produtos para um maior preço de venda, o jogo vai expandido os pontos comuns de Harvest Moon de forma eficiente. É gritante que Stardew Valley é influenciado pelos jogos da Natsume, mas é também notável como ele é único, e isso já é notável no começo: o jogo te apresenta uma liberdade enorme desde o início.

Você escolhe desde seu primeiro dia na fazenda se vai querer organizar o terreno, que está completamente abandonado, ou ficar andando pela cidade conhecendo as pessoas. A cada dia você toma uma decisão, e de forma alguma o jogo te pune por isso. A cada dia, cada decisão é só sua. Isso torna um jogo com uma premissa extremamente simples em algo complexo e contemplativo. Um grande trunfo para um jogo desenvolvido por uma pessoa só.  A trilha sonora coopera para esse clima. Sempre calma, sem muitos grandes momentos que liberam adrenalina no jogador, ela conduz bem o clima contemplativo da experiência rural de Stardew Valley.


Experiência rural, aliás, com tons de fantasia e crítica ao capitalismo. Fantasia ao permitir que você explore as minas de minérios e enfrente monstros, ou com suas interações com magos e duendes espalhados pela cidade. O sistema de matar monstros, por sinal, não é bem desenvolvido. Você simplesmente tem uma espada e deve ficar tentando matar as criaturas que aparecem para você apertando o botão direito do mouse. Até ai, nada demais, muitos jogos fazem isso. O problema é que esse sistema de uso da espada é igual ao do uso de qualquer outro item da fazenda, tornando a mira algo bem terrível para a movimentação dinâmica que a luta exige. Óbvio que o foco do desenvolvedor nunca foi o combate, mas se a opção está lá poderia ter sido bem melhor desenvolvida. É frustrante e bem chato, sendo uma das poucas coisas no jogo que podem fazer o jogador desistir — embora que, como tudo no game, fica a seu critério se vai fazer uso disso ou não. O game faz crítica também ao capitalismo a partir da constante lembrança que aquela vida rural tão gostosa pode ser a qualquer momento exterminada pela sombra da indústria Joja, grande conglomerado para o qual você trabalhava antes de herdar a fazenda.

Enquanto a maioria dos personagens aparentam ter algum brilho — mesmo que muitos sejam bem menos desenvolvidos que outros — todos os funcionários da Joja que você encontra em sua jornada soam como carcaças vazias, sem vontade de viver. Acaba por levantar a questão que talvez, no começo do jogo, o personagem principal era igual, sendo que a saída para algo mais rural e simples o “ressuscitou”.

Stardew Valley conta com a possibilidade de casar seu personagem com qualquer habitante da cidade, sem limitação de gênero. Sendo isso algo extremamente progressista e positivo, é triste notar que os personagens femininos são bem melhor desenvolvidos que os masculinos. Isso acaba criando uma baixa vontade de engajamento com esses personagens, o que tira parte do brilho de algo que poderia ser muito positivo. E a vida de casado, ao mesmo tempo, não adiciona em nada na jogabilidade, sendo mais algo de enfeite do que uma característica que muda o jogo. É um dos poucos pontos onde Stardew fica devendo para Harvest Moon.

Após cerca de 32 horas de jogatina para fazer esta análise, o que ficou na minha cabeça sobre o jogo é como o título é uma experiência calma e que mostra que simplicidade e uma temática mais rural podem marcar bem mais que a maioria das experiências que existem por aí. A outra é que o jogo precisa ser um pouco lapidado. É gritante a diferença nos diálogos de alguns personagens, com suas personalidades mudando entre conversas ou simplesmente menos tempo gasto os idealizando. As plantações e as variadas sementes têm dados muito escassos e a vida de casado não traz nenhuma diferença significante. Pelo menos um desses defeitos foi reconhecido pelo criador, e ele prometeu consertar. Se bem executado, pode ser mais um ponto forte neste incrível e bem feito simulador não só rural, mas de vida.

Prós


  • Liberdade total ao jogador;
  • Várias opções desde o começo;
  • Sistema de plantação bem feito.

Contras


  • Sistema de combate não desenvolvido bem;
  • Alguns personagens são rasos demais;
  • Vida de casado sem grandes diferenças.
Stardew Valley - Steam- Nota: 9
Revisão: Vitor Tibério
Capa: João Leal

Dácio Augusto é estudante de Gestão Financeira na Fatec e redator no GameBlast. Cercado de jogos desde pequeno, foi crescendo e aprendendo a fazer avaliações mais lúdicas do que objetivas.

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