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Análise: Slain! (PC): por fora, uma bela guitarra; por dentro...

Com visual e trilha sonora impactantes, o game da Wolf Brew decepciona em todos os outros aspectos.

Existe uma história sobre o desenvolvimento de Super Mario 64 que diz que o Miyamoto se certificou, antes de qualquer coisa, que seria divertido e fluído controlar o Mario em três dimensões. Imagine o Mario em um espaço vazio realizando os pulos, a mergulhada e a pirueta. Pode não existir um jogo completo ali, mas você sabe que ia ser bacana controlar o baixinho por uns minutos. Oras, é basicamente isso que o jardim representa no início do jogo: um lugar para você se acostumar e se divertir ao controlar o Mario em um mundo 3D, com a diferença que aqui já não é mais um espaço vazio.


As mecânicas de um jogo precisam ser bem feitas e interessantes, caso contrário não haverá visual, trilha sonora, efeitos ou design de fases, por melhores que sejam, que causem empolgação junto ao jogo para entregar uma experiência bacana. Slain! tem uma proposta visual e sonora interessante e bem executada? Sim. Mas Slain! não é gostoso de se jogar.

Não tem música que resolva

Slain! não é focado na exploração, nem no aspecto narrativo, e muito menos possui sistemas robustos ou algum outro tipo de atrativo. O game é um hack ’n’ slash, com foco no combate. Este é o grande pecado do jogo, já  que aquilo que representa o aspecto central do jogo é ruim. Batalhar e enfrentar os inimigos, mesmo os chefes, é sem graça quando não frustrante.

Basicamente, todos os movimentos de todas as armas, o pulo e o dash para trás são, além de sem graça, bem truncados. É como se, em diversos momentos, o freio de mão do personagem estivesse um pouco puxado. Não existe fluidez entre os movimentos de ataque. Isso se aplica, talvez de forma ainda mais contundente, à forma de lobo que o personagem pode adquirir e que altera um pouco a mecânica.


Mesmo se eles fluíssem da maneira esperada, o combate ainda seria chato. Os movimentos de ataque não empolgam, o golpe com pulo também não, assim como o dash. Aliás, o dash para trás não tem utilidade nenhuma no jogo, já que ele é lento e não apresenta fluidez com os outros movimentos, não sendo facilmente conectável com os ataques. As mecânicas de combate de Slain! são ruins. Mesmo com uma razoável variedade de inimigos, as batalhas nunca empolgam. Muito pelo contrário, elas irritam.

Dessa forma, até mesmo inimigos e chefes interessantes se tornam torturantes. Não é desafiador, é quebrado e desbalanceado. É muito mais fácil usar o “truque” de ficar agachado atacando, já que assim muitos inimigos não te acertam. O problema de encará-los da forma esperada pelo jogo é que o mesmo traz uma dificuldade que não encontra respaldo nas mecânicas do game. É como se os movimentos do protagonista não tivessem sido considerados na hora em que os desafios a serem vencidos foram criados.


Além de todos esses problemas, existe ainda um mal posicionamento dos checkpoints. Isso torna tudo ainda mais desesperador, especialmente quando temos que enfrentar inimigos que morrem com 30 a 50 hits e que são chatos de serem confrontados através de um combate quebrado e frustrante.

Possivelmente, o último pensamento que você quer ter enquanto joga um game é “nossa, eu preferia estar passando roupa”. E, por mais estranho que isso possa parecer, eu de fato preferia estar fazendo alguma tarefa doméstica do que ficar jogando Slain!. Ambas as atividades não são divertidas, mas pelo menos as tarefas domésticas trazem um resultado positivo à minha vida. E dá para escutar uma música enquanto as realizo.

O pouco que se salva

Mas, dá também para escutar uma música enquanto se joga Slain!, e a trilha sonora do game é um dos principais aspectos do título. Não é incomum ver jogadores que gostam de ouvir metal enquanto jogam games guturais, violentos ou simplesmente de ritmo rápido e frenético. Slain! não apenas traz essa ideia para dentro do título, como também define grande parte da experiência de jogo.

As músicas realmente impelem à ação, e é inegável a relação entre elas e os aspectos visuais. Em alguns momentos, a música é mais calma do que o normal, deixando os ritmos mais acelerados para os cenários com bom ritmo de ação. Mas, mesmo esse aspecto interessante do game sofre com a repetição, assim como a outra parte importante da experiência.


O visual do game busca compor essas referências musicais e culturais. Bruxas, fantasmas, lobos e muito sangue compõem os cenários. A execução da ideia de se criar ambientes sombrios e no estilo gore é bem competente. As imagens estáticas como em fotos já dão uma boa ideia do visual de Slain!, mas a coisa toda fica ainda mais interessante com movimentos (e com a música).

Alguns estágios possuem momentos e ideias interessantes, mas raramente algo é bem executado. O jogo até tem uma proposta de design razoável e leva em consideração a progressão dentro da fase, mas é muito difícil algo causar impacto ou empolgação quando a exploração e o combate estão comprometidos.

Incompetente e inacabado 

Honestamente, Slain! não parece ser um game finalizado. Talvez ele não fosse ficar muito melhor do que de fato é, mas mais tempo de desenvolvimento sanaria pelo menos alguns bugs, a falta de polidez, os problemas de movimentação e, sobretudo, as dificuldades com o controle. Eu mesmo joguei com um controle e até consegui executar os comandos, mas a situação foi bem pior para outros jogadores, principalmente aqueles que usavam o teclado.

Entretanto, Slain! tem algo importante a ser analisado: a forma como uma proposta interessante gera um hype tão grande que acaba sufocando o próprio processo de desenvolvimento. O game foi sendo adiado diversas vezes e grande parte dos entusiastas (que apostavam no jogo pelo seu visual, música e proposta de hack’n’slash de qualidade) começaram a fazer piadas com os atrasos, criando uma certa pressão para que o jogo fosse lançado logo.



É necessário refletir sobre esse resultado, já que esta situação influencia diretamente no produto final. Mas, no fim das contas, eu não acho que o game seria tão diferente do que é, já que o seu maior problema está na baixa qualidade de suas mecânicas. Slain! não entretém ao longo de seus diversos estágios, e também não entreteria se controlássemos o personagem em uma tela branca.

Prós

  • Visual que compõem a atmosfera;
  • Boa trilha sonora.

Contras

  • Mecânicas de combate péssimas;
  • Movimentação ruim e truncada;
  • Inimigos desinteressantes;
  • Experiência frustrante.
Slain! — PC — Nota: 4.0
Revisão: Érika Honda
Capa: Diego Migueis
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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