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Análise: Danganronpa: Trigger Happy Havoc (Multi) é uma batalha entre o conformismo e o desespero

Uma das maiores séries da Spike Chunsoft finalmente chega aos PC.


Após quase seis anos de espera, aproveitando a confirmação de Danganronpa 3 (PS4/PS Vita) para algum momento de 2016, a Spike Chunsoft finalmente lança Danganronpa: Trigger Happy Havoc, antes exclusivo do PSP e PS Vita, para PC. Para aqueles que ainda não estão familiarizados, essa é uma série de jogos de Visual Novels (Romances Visuais) de mistério e investigação. Além de dois jogos principais e vários spin-offs, a franquia ainda conta com  mangás, light novels e, recentemente, um anime, Danganronpa: The Animation.

Conheça o Desespero

No primeiro jogo da franquia, Trigger Happy Havoc, você encarna Makoto Naegi, um estudante mediano, mas que possui uma sorte fora do comum. Inesperadamente, ele foi selecionado para estudar na Hope's Peak Academy, um antigo e tradicional colégio fundado pelo governo que conta apenas com os melhores alunos. O problema é que quando Naegi chega próximo aos portões do colégio, perde a consciência e, ao despertar, descobre que está preso dentro da escola junto de mais quatorze estudantes, que foram capturados de maneira similar.

Pouco tempo depois, surge Monokuma, um urso de pelúcia metade branco, metade preto, que diz que eles serão forçados a viver naquela escola para sempre a não ser que eles se graduem. Entretanto, a única forma disso acontecer é matando um dos colegas presentes sem serem pegos.

Adaptação ou assassinato

O jogador tem acesso a todos os pensamentos e sentimentos mais profundos do protagonista. Com o objetivo de ser mais imersivo, a visão é em primeira pessoa, de modo que utiliza-se um dos direcionais analógicos para movimentar-se e o outro para focar sua visão na parte do cenário desejada, podendo facilmente interagir com pessoas e objetos, o que é essencial para, posteriormente, realizar investigações e avançar no game.

Apesar de nos corredores do colégio você ter uma grande liberdade de movimentação, podendo ir para qualquer lado que se deseje ( 360º), o mesmo não ocorre no interior de cada um dos cômodos. Nestes, você só pode se movimentar parcialmente para os lado. Além disso, todos os objetos e personagens são bidimensionais. Esse recurso visual facilita enxergar aquilo que se encontra atrás deles.

Outra facilidade também é a possibilidade de destacar todos os objetos e estudantes em um determinado local, colocando temporariamente círculos azuis ao seu redor. Isso facilita muito as jogatinas quando o comparamos, por exemplo, à maioria dos point n’ clicks antigos, no quais algumas vezes praticava-se o infame pixel hunting —  momento no qual ficamos clicando aleatoriamente no cenário para conferir se há algo ou alguém que não notamos, ou quando o jogo exige uma precisão fora do comum para se interagir com um determinado personagem ou coisa.

A trindade do mistério

No início do jogo não existe qualquer liberdade de interação, fazendo com que este se aproxime mais de um light novel do que propriamente um game , o que pode ser entendiante para alguns jogadores. Todavia, a partir do fim do prólogo é que são apresentadas as mecânicas do game e este começa a realmente a ficar interessante. Trigger Happy Havoc possui um total de seis capítulos e cada um deles, por sua vez, pode ser  divididos em três principais momentos: Free Time (tempo livre), Intestigation (investigação) e Trial (julgamento).

O Free Time é o momento em que Naegi pode relaxar em seu quarto pessoal, explorar a Despair's Peak Academy e desenvolver amizades. Durante esse tempo ele tem acesso aos principais lugares dentro da escola, como refeitório, lavanderia e ginásio, entre outros. Alguns cômodos do colégio, todavia, estarão fechados a princípio e só serão liberados no decorrer da história.

O grande destaque, entretanto, é a Store Hall, uma pequena loja onde é possível comprar itens que podem ser usados tanto para presentear outros personagens, o que auxilia a conquistar a amizade dos mesmos, quanto como colecionáveis. Estes itens, no entanto, têm um custo. Eles só podem ser comprados em troca de moedas, que podem ser adquiridas através de exploração e ao final de cada um dos capítulos do game.

O tempo livre também permite que o protagonista conheça melhor e crie vínculos com os outros estudantes. Isso pode lhe render recompensas como skills e informações que poderão ser muito úteis durante investigações e julgamentos.

Esse estágio do jogo não é obrigatório e você pode optar por simplesmente voltar, ficar em seu quarto e dormir. Contudo, é difícil resistir a curiosidade de explorar e, principalmente, descobrir mais sobre os outros estudantes. Não digo isso apenas pelos benefícios, mas também pela chance de conhecer melhor os personagens pitorescos. Ishimaru, por exemplo, tem um senso de humor peculiar, no qual apenas ele acha graça de suas próprias piadas; Yamada, que acha que, na maior parte do tempo, é o personagem principal de uma obra geek, faz várias piadas e referências ao gênero.

À primeira vista, os estudantes parecem ser estética e comportamentalmente  esteriotipados Contudo, com o desenrolar da trama, quando você finalmente os conhece melhor, seus arquétipos são desconstruídos. No final das contas, ninguém é de fato o que aparenta ser e, com o incentivo certo, qualquer um deles será capaz de matar.

Déja-vù investigativo

Apesar de toda esta aparente diversão, não podemos nos esquecer que todos em Peak’s Hope são prisioneiros. Ao contrário do que é proposto no início do jogo, quando nos é permitido escolher entre o conformismo ou assassinato, Monokuma não ficará satisfeito com um pacífico ambiente estudantil. O ursinho utilizará dos mais ardilosos truques e ameaças para fazer com que os estudantes se matem. É só uma questão de tempo para que ocorram os primeiros assassinatos, dando início às primeiras investigações.

Nestes momentos, você novamente percorrerá todos os cômodos acessíveis do colégio, mas agora à procura de provas, suspeitos e testemunhas. Você terá de encontrar objetos relacionados ao crime, além de ter que interrogar seus colegas, principalmente quando uma nova prova ou depoimento relacionado a alguns deles vir à tona. Esse é um dos momentos mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais trabalhosos de todo o jogo.

Há muitas provas e testemunhas para se lidar, o que por vezes torna a compreensão do crime um pouco confusa. Como se isso já não fosse o bastante, os casos tendem a ficar mais complexos à medida em que você avança no jogo. Não é incomum que você visite um determinado lugar ou pessoa mais de uma vez a procura de novas evidências e testemunhos, pois nem todos elementos ficam disponíveis desde o começo da investigação. É preciso ter paciência e ficar atento. Vale frisar que o caso não irá a julgamento enquanto não se encontrar todas as provas, o que torna esta parte do jogo ainda mais exaustiva.

Apesar de tudo isso, como já foi comentado, o game conduz o jogador de forma eficiente, mostrando onde se localizam os itens e personagens interativos de uma determinada sala. Locais de interesse, representados por pontos de interrogação no mapa, também são marcados, o que facilita a investigação.

Caos no tribunal

Após uma investigação minuciosa, chega o momento do Trial, uma espécie de julgamento tumultuado, no qual todos se reúnem para discutir quais dos personagens é o culpado. Pode-se considerar que o trial será uma consequência de tudo o que foi conquistado durante o tempo livre e investigação. Nele, todo o conhecimento acumulado sobre a escola e os personagens, além de provas e testemunhas, têm uma utilidade prática. O problema é que, caso até o final deste evento os estudantes não encontrem o verdadeiro culpado, todos eles serão executados, com exceção do assassino, que poderá deixar Hope's Peak Academy livre e com vida.

Durante os julgamentos você poderá se utilizar de dois artifícios para sua argumentação: o Reaction e as Truth Bullets. O primeiro corresponde à capacidade de questionar ou até mesmo refutar uma determinada premissa de um personagem, mas isso só pode ser feito se esta for uma mentira, que são representadas por uma ou mais palavras achuradas na legenda. Quando essa mecânica é ativada, o oponente é obrigado se explicar ou mesmo admitir seu erro.

A segunda mecânica funciona de maneira mais complexa, pois se trata mais do que simplesmente apontar possíveis incongruências no discurso. Aqui, finalmente todas  evidências que foram adquiridas durante a investigação poderão ser apresentadas. Cada uma dessas provas é representada por uma bala que, por sua vez, deve ser literalmente atirada na parte falsa da frase dita pelo outro personagem. Deve-se, entretanto, atentar a cada uma das balas, lembrando que cada uma correspondem a uma determinada prova, para que de fato esta dê conta de por fim ao argumento do adversário.

Para que os jogadores não sejam pressionados devido ao tempo, o julgamento é dividido em várias cenas distintas. Ao final de uma determinada parte, é possível usar uma espécie de “botão de rebobinar”, fazendo com que a cena seja mostrada desde seu início. Este recurso, no entanto, só é válido caso ainda não se tenha usado Reactions ou Truth Bullets. Caso contrário, o personagem perderá inteira ou parcialmente uma de suas cinco vidas. Quando a totalidade de vidas chega ao fim, o julgamento é encerrado, o vilão sai livre e o restante dos personagens morre. Mesmo que você erre diversas vezes e perca todas as suas vidas, sempre é possível tentar novamente a partir da última cena.

Os Trials são, de longe, a parte mais emocionante e recompensadora, logo também a mais esperada de todo o game. Além de seu resultado mostrar quem é o assassino e como exatamente este cometeu o crime (antes disso é difícil ter uma ideia precisa), é nesse momento que você realmente percebe que todo seu esforço e tempo dedicados à investigação realmente valeram a pena.

Quando o desespero se transforma em loucura

Apesar de ser um jogo longo e recheado de diálogos, Danganronpa não é inteiramente dublado, usando o recurso somente nos momentos mais significativos da história, deixando o gameplay bem mais lento e desconfortável. Isso pode desencorajar alguns, principalmente pelo fato de que, atualmente, a maioria dos Triple A e até mesmo alguns indies contam com trabalho de voz.  Inclusive, alguns possuem localização para o nosso idioma, o que não é o caso da maioria dos jogos japoneses, incluindo todos os da série Danganronpa, que possuem dublagem e legendas apenas em inglês e japonês.

Outro elemento que traz desconforto são as músicas de fundo que são extremamente repetitivas e só mudam ou param quando o viés da conversa se altera ou você vai para outro cômodo. Isso não incomoda tanto no desenrolar da história, mas chega a ser enlouquecedor durante os momentos investigativos, quando você precisa passar muito tempo em um mesmo local. A sorte é que você pode usar as opções do game para abaixar ou simplesmente retirar especificamente o som de fundo. O game até possui uma boa variedade musical, o problema é modo como ela é distribuída.

E o veredito é...

Danganronpa: Trigger Happy Havoc é um jogo com uma excelente história e personagens tão carismáticos que farão com que você invista dezenas de horas em conversas, mesmo que isso não seja um pré-requesito para concluir o game. Adicionadas a isto, há mecânicas que auxiliam sua interação e, consequentemente, sua investigação, o que torna o jogo mais prazeroso. Por fim, os Trials, além de imprevisíveis, fecham cada um dos capítulos de modo a nos deixar sedentos pela continuação da história.

É difícil não recomendar este game a todos. Àqueles que não estão acostumados com Visual Novels, recomenda-se ter um pouco de paciência. Obviamente não se trata de um jogo de ação nem de pura investigação. Além de milhares de linhas de texto, haverá momentos em que, acima de tudo, você deverá se concentrar em conhecer os outros estudantes. Mas isso não é algo que um jogador aberto a novas experiência não dê conta, principalmente pelo fato de isso poder adicionar muito às suas experiências de jogatinas.

Prós

  • Personagens memoráveis;
  • História envolvente;
  • Mecânica que destaca itens e personagens interativos;
  • Julgamento emocionante;

Contras

  • Dublagem parcialmente presente;
  • Trilha sonora repetitiva.
Danganronpa: Trigger Happy Havoc — PC, PS Vita e PSP — Nota 9.0 
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Victor Pereira

Manoel Siqueira Silva é formado em Análise de Sistema e Filosofia pela UFSCar. Aprecia games de todos os gêneros, mas confessa ter uma queda por RPG e jogos de mundo aberto. Está sempre em busca de games de qualidade que foram subestimados ou são desconhecidos. Este ser pode ser encontrado no Twitter e no Facebook.

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