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Análise: Street Fighter V (PS4/PC): Na tênue linha entre a vitória e a derrota

Título traz bons e novos ares para as batalhas, mas peca com poucos modos de jogo e problemas no modo online.

Um dos lançamentos mais esperados de 2016 deu as caras na última terça-feira, dia 16. Street Fighter V veio com uma missão diferente de todos os seus antecessores, pois é o primeiro SF lançado nessa nova era dos e-Sports. Isso acarretou em mudanças em alguns fundamentos clássicos da franquia.


Em uma montanha russa de altos e baixos, há qualidades significativas nesse quinto episódio. Entretanto, elas acabam perdendo força perante a erros sérios, que comprometem a diversão que todo Street Fighter sempre trouxe nos jogos da franquia.


A arte da luta

Considerando as lutas em si, o famoso “x1”, Street Fighter V é um ótimo jogo. Todas as promessas feitas nesse quesito foram atendidas.

Houve uma simplificação na execução dos golpes. Técnicas de carregar comandos ou movimentos complexos foram quase extintos. A intenção por trás dessas mudanças é não travar o jogo por conta de dificuldades na realização dos golpes, deixá-lo acessível de forma que você possa fazer o que quiser.

Não significa que o Street Fighter V seja um jogo raso nesse aspecto. Ainda existem diversas camadas de complexidade que devem ser desbravadas. O jogo não está mais fácil, mas sim mais controlável. Com um pouco de treino e dedicação, fazer alguns combos mais elaborados não parece tão impossível.

Rashid é um lutador bem ofensivo
Outro aspecto que converge com essa mentalidade é a composição do cast de lutadores. Dezesseis personagens é um número bem menor do que os 25 iniciais de Street Fighter IV. Esse plantel reduzido beneficia os jogadores a conhecerem a diversidade de lutadores com mais facilidade, auxiliando na compreensão de pontos fortes e fracos de cada match-up. É um grupo menor, mas mais heterogêneo, cobrindo os mais variados estilos de luta. Achar pelo menos um personagem que se adapte melhor ao seu perfil não deve ser problema.

V de Vitória

Somado a essas mudanças, temos as novas habilidades específicas desse Street Fighter V. As estreantes da vez são a nova barra chamada V-Gauge e três novas técnicas:
  • V-Skill: Acionado com Soco Médio + Chute Médio, é um movimento único para cada personagem, variando de um ataque a um movimento defensivo;
  • V-Trigger: Gasta completamente a V-Gauge, gerando um golpe especial ou aumentado a força do lutador por um tempo, dependendo do personagem;
  • V-Reversal: Usa uma divisória da V-Gauge e abre uma brecha no ataque inimigo para contra-ataque. Ativado apertando para frente mais três socos ou três chutes, dependendo do personagem.
A V-Gauge, vale ressaltar, é preenchida ao receber dano ou usar a V-Skill do personagem.

A V-Gauge é o recurso que permite um lutador em desvantagem alterar o rumo da partida. Desde que ele tenha a habilidade para usar essa ferramenta.
Novamente, temos habilidades que, em execução, são mais simples do que os Focus Attacks e Ultra Combos da edição anterior, mas não menos impactantes na batalha. Como cada personagem tem uma reação diferente, compreender o funcionamento delas se torna chave para trilhar o caminho das vitórias.

Todas essas mudanças são benéficas no sentido de “obrigarem” a pessoa a entender o jogo. A execução mecânica passa a ter menos peso, dando espaço a um maior foco em estratégias e análises da luta.

Falando em barras, a barra de stun agora é visível, dando a noção exata de quanto um personagem está próximo de ficar tonto. Isso também traz aquela clássica indagação dos tempos de fliperama: vale pegar tonto?

Graficamente, SF V está muito bonito.

As pedras no caminho do guerreiro

Bom, pelo escrito acima, é visível que a Capcom fez um grande esforço para tornar Street Fighter V o mais abrangente possível. Mas todas essas mudanças são borradas pelo resto do jogo, que é incompleto e fraco. Se as decisões de design dentro das partidas são boas, as externas são péssimas.

O modo História é uma breve introdução para cada personagem. Literalmente. São duas ou três lutas de um round, com um nível de dificuldade praticamente inexistente. É um bom meio de introduzir os lutadores, mas definitivamente não há desafio aqui.

Temos então o modo Versus, que não traz opção de lutar contra o CPU, só contra um player 2, e o modo Sobrevivência. Neste último, o nível de dificuldade deixa a desejar de maneira geral. O seu maior inimigo será você mesmo, já que depois de um tempo de jogo esse modo só se torna cansativo. Tudo isso só para ganhar uma cor extra para o personagem.

Por fim, há o modo Treinamento. Com diversas opções, é um modo bem competente. E o único lugar onde você pode lutar com o CPU definindo o nível de dificuldade da máquina.

A falta de um modo equivalente ao Arcade é uma punhalada nas costas de SFV. A sensação que tive é que a ideia era criar só uma plataforma online, e que os modos single-player estão presentes só para completar a tela, como suporte para os confrontos via internet.

Menu principal do jogo. Estou até agora procurando um modo arcade, mas sem sucesso.
Se você não gosta ou não se sente confortável jogando online, e isso é perfeitamente normal, Street Fighter V vai mais te frustrar do que divertir. Da mesma forma, o jogador mais casual deverá se sentir desamparado, sem muitas alternativas para se divertir com o conteúdo entregue.

Futuramente haverá o modo Desafio (março) e o tão falado modo História “de verdade” (junho). Ao pegar o jogo agora, fica aquela sensação de ter pago por um produto que não foi finalizado da maneira adequada.

F.A.N.G usa venenos no adversário, tirando a vida do oponente de pouco em pouco.

A briga agora é online

Por tudo o que eu disse, podemos pensar que pelo menos as partidas online, o carro chefe do produto, estão funcionando de forma satisfatória. Bom, infelizmente a história não é bem essa.

Como todo grande lançamento nesses últimos anos, complicações nos servidores foram constantes. Em comparação com o primeiro dia, a situação está aos poucos melhorando, mas a demora para achar partidas ainda incomoda.

Eventualmente, acredito que esse problema deva ser atenuado, mas em um título que aposta todas suas fichas no online, e traz tão pouco conteúdo offline, esses erros ganham uma dimensão muito maior. Pelo menos durante as lutas, poucas vezes tive problemas de lag e, quando houve, nunca foi algo grave.

Não há mais tela de seleção antes de lutar on-line. Você já deixa sua escolha pré-definida, assim já vai direto para a luta quando encontra um oponente.
Quanto às opções no online, temos somente três alternativas: partida ranqueada, partida casual e lobby de batalha. Os lobbys, atualmente, só têm capacidade para duas pessoas. Em março, a capacidade deverá ser aumentada para oito jogadores. Assim como em outros pontos que já destaquei, fiquei novamente com a sensação que temos um produto entregue às pressas.

Por fim, ainda há o Capcom Fighters Network, que serve de hub para adicionar amigos ou outros jogadores que você queira acompanhar, ver replays da comunidade e os placares de pontos.

Geralmente isso costuma doer

A busca pelo mais forte está longe de acabar

Street Fighter V tinha potencial para ser um dos melhores lançamentos de 2016, mas o que temos é um produto com cara de inacabado e terminado às pressas para atender uma demanda de torneios e contratos. Pelo jeito como foi entregue, é triste ver que temos só pedaços de um jogo. A impressão é que a Capcom quis mais entregar uma plataforma de luta online do que um jogo completo, um que carrega o nome de Street Fighter.

Há coisas muito boas, como as novas mecânicas de luta. A parte gráfica e sonora são de ótima qualidade. Com todos os patches e expansões prometidas, provavelmente Street Fighter V será um jogo bem melhor daqui seis meses ou um ano. Mas hoje, pelo que foi disponibilizado, é difícil recomendar o título para alguém que não queira se dedicar nas partidas online ou já tenha alguns amigos para jogar junto.

É uma pena ver tanto cuidado com algumas partes e tanto descuido com outras, pois eu realmente me diverti jogando. Como fã da franquia, espero que o tempo, com seus pacotes de atualizações, cure as feridas, e que Street Fighter V se torne o jogo que ele já deveria ser logo no lançamento.

Prós

  • Novo sistema V-Gauge;
  • Simplificação de mecânicas de luta;
  • Variedade de perfil de lutadores;
  • Ótima trilha sonora.

Contras

  • Falta de modos do jogo single-player;
  • Dificuldade baixa nos modos existentes;
  • Problemas nos servidores ainda persistem;
  • Jogo lançado “em parcelas”.

Street Fighter V — PC/PS4 — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: José Robson Jr.
Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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