Jogamos

Análise: Side Quest (PC) é beat’em’up, carisma e drible

Game brasileiro de aventura serve um belo visual, acompanhado de espadadas e projéteis com uma pitada da estratégia.

Imagine que você resolve pedir uma pizza. O entregador vai chegar na sua casa, você vai pagar, ele vai embora para continuar trabalhando e você vai saborear a melhor comida inventada pelo ser humano. Via de regra, é apenas isso que acontece, a não ser que essa entrega de comida aconteça em uma pegadinha, em um filme pornô dos anos 1980 ou em Side Quest. O game começa com uma ideia estranha: o cozinheiro vai entregar um pedido de comida nas masmorras e acaba tendo que realizar uma missão paralela para um mago esquisito. Ao longo da aventura, nosso Herói (é o nome dele), outrora chef de cozinha, vai descer espadadas, lançar magias e pular muito de um lado para o outro em um reino com inspiração nas histórias de cavaleiros.

Da cozinha à aventura

A partir dessa premissa descontraída, já entendemos que o jogo prima pelo bom humor e descontração. O enredo brinca com a ideia do que é um herói ou um cavaleiro, assim como com tudo que está no entorno de uma missão para “salvar a princesa”. Temos um herói que não é bem um herói, um vilão que resolve virar vilão de repente e só se dá mal, um cavaleiro lendário enganado, e o suspeito mago. Todos esses personagens conversam por caixas de diálogo (eles falam, mas em uma língua parecida com a do Pingu), e esse diálogos são cheios de piadas e referências. Particularmente, não é meu tipo de humor e eu não achei muita graça, ficando com a impressão de que a tentativa do humor é forçada e não fluída. De qualquer forma, o game é fiel em sua proposta do início ao fim, tentando construir um enredo leve, com personagens simpáticos e diálogos bem-humorados.

Outro aspecto que fica evidente logo no início, e também vai no sentido de construir um título leve, é o visual. Mesmo nos estágios com tons mais escuros, ele é alegre e simpático, e no restante das fases vemos um mundo colorido, inclusive com efeitos de luz interessantes que ajudam a criar os ambientes com um aspecto leve e que é tranquilo aos olhos. Os últimos cenários são (bastante) bonitos, usando muito bem as cores e o jogo de luzes.

Para terminar minha check-list de aspectos avaliados em revistas e sites antigos, é importante ressaltar o áudio e a trilha sonora do jogo. As músicas cativam e casam muito bem com a ação e os cenários. Elas remetem à grandes jornadas e aventuras ao mesmo tempo em que são, também, bem-humoradas e leves. Mas, fora a alfinetada, esses aspectos (o visual e o áudio) se confirmaram como meus preferidos ao longo da jornada, já que tenho sentimentos mistos em relação ao enredo e, sobretudo, às mecânicas de jogo.

Batalhas rápidas e com uma pitada de "estratégia"

Ao mesmo tempo em que eu gosto da ideia de uma história e interações bem-humoradas entre os personagens (e de como isso casa com os outros aspectos do jogo), não gosto muito do tipo de humor que ele traz. Enquanto gosto bastante da ideia das mecânicas de combate e movimentação, não são muitos os momentos que elas entregam uma experiência que atinja o potencial dela.

A premissa é muito bacana: com movimento de espada e atirando projéteis (magia) você deve vencer os inimigos que chegam de ambos os lados, só que eles também atacam de curto e longo alcances e (isso é o principal) você pode alternar entre duas linhas (uma mais profunda e outra mais próxima), dando dribles nos inimigos e fazendo com que eles atinjam seus projéteis uns nos outros. Os inimigos também podem, e vão, alternar entre os planos para tentar atingir o personagem, e a partir daí é possível engajar em uma batalha de movimentação, reação e estratégia.
É possível se mover tanto na parte mais próxima (onde estão os personagens), como na parte mais profunda (onde está a caixa).
Mas como eu levantei, não foram muitos os momentos em que eu senti que isso estava acontecendo de forma satisfatória. Em algumas situações, o game é trivial (inclusive em batalhas contra chefes), fácil no sentido de que a ação não empolga muito e não existe muito espaço para alternar essas esquivas com seus movimentos, pensando, em meio a ação, uma forma de fazer com que os inimigos se agridam, ou que perfilem de maneira favorável e tranquila para que o cozinheiro-guerreiro-herói os vença. E quando existe esse espaço, com diferentes tipos de inimigos e um maior grau de desafio, a movimentação e algumas restrições podem frustrar.

Às vezes, você recebe aquele projétil “roubado” quando você já estava mudando de linha, noutras, você consegue alternar de cima para baixo, mas não de baixo para cima (geralmente nos cantos da tela). Existem momentos em que você dá a espadada bem perto do inimigo e não o atinge (enquanto ele te atinge), em em outras ocasiões (essas mais raras) o controle demora a responder.

De qualquer forma, é justamente nos momentos em que os diferentes tipos de inimigos (e são poucos) aparecem em sucessão que o jogo brilha. Aliar o combate de ação frenética com um pouco de pensamento estratégico é sempre algo que me agrada. E em Side Quest a união entre atacar de perto, atacar de longe, desviar e levar os inimigos a se danificarem, acaba trazendo uma jogatina fluída e divertida. Infelizmente, são poucos os momentos em que o game entrega o melhor dessa experiência que eu estava aguardando.

A quantidade de inimigos reduzida, e com movimentos de ataque semelhantes, também é um fator que acaba limitando as possibilidades. Side Quest, entretanto, é um jogo curto, pensado justamente como uma missão paralela para ser vencida em curtas partidas. Nesse sentido, a variedade de inimigos pode funcionar, só não funcionou completamente para mim, pois senti falta de mais possibilidades nos momentos de combate mais intenso.

Resumo da receita

Side Quest é, no geral, competente. Seu visual e trilha sonora agradam e complementam a experiência. O enredo e os personagens são leves e bem-humorados, ainda que o tipo de humor possa não agradar. As mecânicas de jogo são interessantes, mas nem sempre funcionam bem a ponto de atingir o potencial. Um título curto que pode divertir em rápidas sessões, ou em uma única sentada. O Herói não nos traz a melhor comida do mundo, mas um interessante e novo prato que pode ser ainda mais refinado.

Prós

  • Visual colorido, reluzente e condizente com a proposta;
  • Áudio e trilha sonora bacana, também condizentes com a proposta;
  • Mecânicas interessantes;
  • Batalha frenética, mas que recompensa quem tenta jogar de maneira mais estratégica;
  • Enredo bem-humorado...

Contras

  • … com um humor que pode não agradar;
  • Fases repetitivas, triviais ou frustrantes;
  • Alguns problemas nos controles de combate e movimentação.
  • No geral as mecânicas e o design não agradam.
Side Quest – PC – Nota: 5.0

Revisão: Jaime Ninice
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais