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Análise: Pocket Mortys (Android/iOS) mistura Pokémon e muitas piadas

Bordões e arrotos do Rick, visual de Pokémon de DS e mecânicas de Pokémon de Game Boy. Ah, e tem mais de 80 Mortys geneticamente modificados. Temos que pegar.


Mais de um ano (ou mais) até a próxima temporada de Rick and Morty e as festividades de 20 anos de Pokémon. Esses são motivos mais do que suficientes para criar um jogo com a mecânica parecida com a de Pokémon Red e Blue (Game Boy), e com o visual inspirado em Pokémon Heart Gold e Soul Silver (DS). Quer dizer, se você quiser acertar fãs de Rick and Morty e Pokémon em cheio. Então a Adult Swim Games, vertente do Adult Swim, o bloco de desenhos animados adultos do Cartoon Network, criou esse app para acalmar os espíritos ansiosos por novidades dessas duas franquias.

Pena que não surge nenhum Pokémon dessa grama

Para quem não sabe, Rick and Morty é uma série de ficção científica, comédia e filosofia que começou a ser veiculada no fim de 2013 no Adult Swim. Ela fez tanto sucesso que está indo para a terceira temporada e já teve até uma abertura dos Simpsons com os seus personagens. Os roteiros são basicamente viagens no espaço e uma caravana de espécies extraterrestres. Muita coisa acontece, piora em vários saltos dimensionais e, no final do capítulo, tudo se resolve de uma maneira improvável e genial.

“It’s time to get schwifty”

Mas esse não é o primeiro jogo da série. Em julho de 2014 saiu um adventure lançado na forma de capítulos, o Rick & Morty: Rushed Licensed Adventure (PC), que lembra muito o Noite Animal (PC), o adventure tosco do Casseta & Planeta de 1996, pelo menos no nível de bizarrices. No entanto, não fez tanto sucesso.

Pocket Mortys parece uma mina de ouro à primeira vista, tem várias piadas incríveis, tanto que você fica um minuto inteiro rindo de alguma coisa para só depois conseguir voltar ao jogo. Os milhares bordões do Rick, seus arrotos entre as palavras, a relutância de Morty em participar das aventuras e, principalmente, algumas divagações sobre o lugar que ocupamos no universo estão presentes aqui. O universo e as coisas particulares dele no desenho foram preservados, e isso acaba sendo o ponto alto do jogo. Apesar dos diálogos dos Gobble Blag Blug e de outras raças alienígenas serem sempre a mesma coisa, topar com alguma melodia do desenho animado na playlist do jogo é maravilhoso. Destaque para It’s Time To Get Schwifty e Goodbye Moonmen.
Saquei

“I want to be the very best”

Pokémon Center, Day Care, Gyms, Pokédex, evoluções e vários outros pontos comuns da franquia Pokémon estão aqui, é uma paródia muito bem executada, e é incrível a nostalgia que os fãs de Pokémon terão jogando Pocket Mortys. Ver seus monstros te seguindo, a visão panorâmica e as árvores gorduchas, todos são elementos típicos do level design de Pokémon HG e SS. Já as plataformas largas são recorrentes em Pokémon Diamond, Pearl e Platinum (DS).

Mas fora a direção de arte, a mecânica é uma versão simplificada das primeiras gerações, um tempo opaco quando os Pokémon tinham poucos golpes para aprender, então o jogo ficava um pouco repetitivo. Tem uma tribo chamada Genwunner que glorifica isso e acha que a primeira geração é melhor do que as outras. É claro que os meios de transporte e a existência de vários habitats davam uma diversificada nisso, mas não é para tanto, novos Pokémon e mecânicas diversificaram a franquia. Ainda assim, é legal jogar com as regras antigas nos simuladores de batalha online.
Contudo, diferente da musa que tenta parodiar, Pocket Mortys fica repetitivo logo depois de poucas horas de jogo. A história é bem forçada, mas é uma piada, e é Rick and Morty, então não é para ser sério. Nela o Rick Sanchez da dimensão dos protagonistas do desenho é proibido pelo Conselho de Ricks de usar a arma de portais porque não tem licença para isso. Para consegui-la, ele deve provar ser o melhor treinador de... Mortys que existe, derrotando os Ricks das outras dimensões, conquistando suas insígnias e, finalmente, desafiando os membros do Conselho.

Depois da introdução você vai para uma estação onde parte para dimensões aleatórias com treinadores difíceis pra caramba. Você pode atenuar isso com mais membros na sua equipe, e com membros mais fortes de preferência. Então, nessas dimensões, Mortys selvagens podem ser capturados quando você joga um chip na pele deles para confundir suas memórias e achar que o Rick protagonista é o Rick da dimensão deles. É como aprisionar criaturas em um zoológico, ou em uma Pokébola, mas quando colocamos um ser humano no centro disso, deixa de ser legal e passa a ser escravidão.

Para a sorte dos direitos humanos, esses chips são muito difíceis de conseguir. Quer dizer, no trailer diz que o jogo não é nenhum freemium, mas poxa, é um trabalho de Sísifo: você grinda e não ganha quase nada de xp. Todo o dinheiro adquirido é revertido para comprar itens de cura e cura de Power Points, para você continuar a atacar. Os seus ataques quase nunca mudam, já que o jogo tem um ritmo lento, e quando você aprende golpes novos, normalmente eles são mais inúteis que os antigos. É tão desbalanceado que chegar no nível 10 gera um achievement na conta do Google Play. No nível 10!

Claro, se não quiser penar muito você pode usar dinheiro real para comprar uns cupons do Blips and Chitz, uma máquina de cápsulas que te dá Mortys e itens úteis. Outros inúteis você pode "craftar" no estilo Minecraft (Multi), podendo combinar até três itens na tentativa e erro — ou indo atrás de alguma Wikia.

“Wubalubadubdub”

Pelo menos tem uns 80 Mortys bem legais
Infelizmente, depois que as piadas acabam, ou quando você percebe que os bordões que o Rick fala são limitados, o jogo perde o porquê de ser jogado por fãs exclusivos de Rick and Morty. Da mesma forma, a existência de somente três tipos (pedra, papel e tesoura) é péssima, limita muito a experiência do jogo para os fãs de Pokémon. Funciona como paródia da tabela de tipos mas é péssima para a jogabilidade.
Os golpes já são escassos e ainda ter só pedra, papel e tesoura como tipos disponíveis deixa muitas batalhas tão iradas quanto ver a tinta secar. O único que foge à regra é o Morty protagonista, que não tem tipo, então seus golpes não são afetados por nenhuma fraqueza ou resistência, o que é bem prático, porque você não precisa ficar trocando toda hora só para ter vantagem de tipo.
Iu

Silph Scope nele
Outro ponto negativo é que o tipo atribuído aos Mortys não faz sentido. O Morty sem pele, por exemplo, deveria ser do tipo papel, por ser frágil. Em vez disso, é do tipo tesoura, algo que perfura, que machuca. Então fica complicado decorar os tipos deles, e para ajudar, é demorado o loading até a “Pokedéx” do jogo para checar isso. Seria mais fácil ter uma identidade visual compatível. Salvo algumas exceções, é fácil de perceber o tipo dos Pokémon, mesmo sem sabê-lo: Blastoise deve ser do tipo agua ápor causa dos canhões hidráulicos; Rapidash deve ser do tipo fogo por causa da chama nas suas costas, e assim por diante.


É chato Pocket Mortys ter tanto potencial e não passar de uma breve homenagem aos fãs da sua série e a alguns fãs de Pokémon das antigas. Mas não deixa de ser justo recompensar os desenvolvedores por todo o trabalho de pensar as piadas e o mashup improvável entre essas duas franquias. Até a terceira temporada de Rick and Morty, é o que temos.

Prós:

  • Referências de Pokémon e de Rick and Morty no mesmo lugar;
  • Piadas de Rick and Morty;
  • Músicas de Rick and Morty;
  • Visual de Pokémon de Nintendo DS.

Contras:

  • Mecânica de Pokémon de Game Boy;
  • Pouca diversidade nas batalhas e nos diálogos;
  • É de graça, mas para se divertir tem que usar dinheiro terráqueo.

Pocket Mortys — Android, iOS — 4,5
Versão utilizada para análise: Android

Revisão: Vitor Tibério
Capa: João Leal
Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no GameBlast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

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