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Análise: Firewatch (PC) é uma história adulta sobre coisas adultas

Viva o papel de um vigia florestal aprontando altas confusões durante o verão.





Durante a infância, eu assistia a muitos filmes na programação da TV aberta no já extinto Cinema em Casa e na Sessão da Tarde. Como era uma programação infantojuvenil, geralmente os filmes contavam histórias de adolescentes americanos se divertindo nas férias de verão e aprontando altas confusões em acampamentos estabelecidos em reservas florestais.

Firewatch, desenvolvido pela Campo Santo, nos remete ao mesmo cenário desse tipo de filme, só que na visão do guarda florestal. Sua função é controlar a turminha do barulho para que eles não ponham fogo na floresta inteira. Claro que isso é uma premissa simplificada do game, que, na verdade, é muito mais profundo.

Do alto da torre de vigia

No início, entre relances do passado e o presente, o jogo nos dá a opções de escolha para escrevermos a história do protagonista, Henry, e sua esposa, Julia. Após passarem dez anos juntos, algo terrível aconteceu e fez com que cada seguisse sua vida, porém sem se divorciarem.



Henry decidiu deixar tudo para trás por um tempo e aceitou o emprego de vigia florestal. Do alto de uma torre, sua função é buscar fumaça e prevenir focos de incêndio. Seu trabalho só não é mais solitário graças a sua supervisora, Delilah, com a qual mantém contato constante pelo rádio.

Ao longo do verão, Henry precisa lidar com adolescentes festeiros que quebram as regras do parque, numa busca constante por possíveis focos de incêndio, e investigar um misterioso caso de desaparecimento.


Uma voz sem rosto

Como sendo a única pessoa com a qual Henry interage, Delilah acaba se tornando uma grande amiga. Ela é sua supervisora e vai lhe contando tudo sobre o parque, além de ajudá-lo a prevenir incêndios.

Delilah é uma mulher madura de muitos amores e se torna uma peça fundamental no jogo. Os diálogos são constantes, mas não atrapalham a jogabilidade. Enquanto você explora o parque, vão conversando pelo rádio através de interações com opção de escolha e que precisam ser respondidos dentro de um tempo estipulado; caso contrário, ela irá se calar como se você não quisesse falar sobre aquele assunto determinado.

Abarcando desde temas cotidianos a piadas de duplo sentido, tais conversas mostram que a amizade entre Henry e Delilah só cresce, como se os dois se conhecessem há anos.


Um homem comum

Henry é um ser humano comum, que não possui super poderes ou coisa parecida. Também não é musculoso e nem especialmente atlético. Ele é um homem normal, pai de família, que está passando por maus bocados no relacionamento. São estes detalhes que trazem profundidade ao game.

Ao perambular pelo parque, o guarda florestal se guia por um mapa e bússola, andando apenas pelas trilhas e fazendo rapel apenas em pontos específicos. O personagem não pula, exceto por onde deve ser pulado, e não atravessa terreno que não deixa possibilidade de ser atravessado. Em suma, é tudo certinho, como na vida real.

No decorrer no game aparecerão alguns mistérios, alguns com solução, outros deixados a cargo da nossa imaginação. Sem nenhum grande feito heroico, vemos que Henry apenas faz seu trabalho.


Imersão no ambiente virtual

Firewatch é um game minucioso. Todos os itens que seu personagem pode segurar ele também é capaz de analisar, girando-o em sua mão e possibilitando a visão de todos os detalhes.


Um exemplo deste aspecto está nos muitos livros espalhados pelo cenário, construídos de forma que transmitam uma sensação de livro velho, surrado pelo tempo e gasto pelo uso. Em alguns casos, inclusive, as capas estão rasgadas. O nível de detalhe não para por aí, contudo: é possível ler o título e a contracapa dos volumes encontrados.

Em muitos games, encontramos itens ilegíveis enfeitando o cenário, principalmente contando com letras miúdas para disfarçar. Em Firewatch, por outro lado, o nível de detalhe é tão insano que até as menores letras têm possibilidades de serem lidas.


Um ambiente esplendoroso

O visual do game é, no mínimo, lindo. A região é montanhosa e predomina-se pela cor alaranjada, intensificando-se ao por do sol. O jogo possui ciclos de dia e noite, eventos climáticos e natureza exuberante.


A trilha sonora é simples, mas de uma forma que se encaixa perfeitamente no cenário; basicamente não existe música no game, apenas o som ambiente. É este silêncio que dá um toque mágico à experiência. Você pode escutar o vento, os pássaros, a água correndo pelo cânion, o som dos peixes no lago. Falando em som, a dublagem é excelente, aliás: percebe-se a emoção nas vozes durante os diálogos. É todo este conjunto de ambientação e sons que tornam Firewatch, afinal, uma memorável experiência.

Uma história a ser vivida

A história do game é relativamente curta: leva-se em torno de seis horas para concluí-la. O nível de detalhe e exploração, contudo, podem render algumas horas a mais de divertimento. Firewatch é uma história sem super-heróis e grandes feitos, apenas um homem dando um tempo na vida cotidiana para poder seguir em frente. Uma aventura única que nos prende pela imersão e não pela ação. O jogo deixa muito mais a falar; e, no entanto, qualquer detalhe extra será spoiler e pode prejudicar a diversão dos jogadores potenciais.


Prós

  • Extremamente detalhista; 
  • História envolvente; 
  • Ambientação deslumbrante. 

Contras

  • História curta. 
Firewatch — PC — Nota: 9.0

Revisão: Bruno Alves
Capa: Douglas Marciano

Douglas Fubarion Marciano escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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