Crônica

Como um tradicionalista se rendeu às microtransações

Todo mundo tem seu ponto fraco. Todo mundo.

Lembro como se fosse hoje de quando o primeiro videogame, um Super Nintendo, chegou em minha casa. Acredito que devia ter uns seis anos na época. Aquele negócio de soprar fitas, de ir ao centro de São Paulo com meu pai para comprar fitas ou ainda à locadora para alugar meus jogos favoritos me encantava.




Ao crescer, após passar por um Playstation e um Dreamcast e então me viciar em colecionar jogos para eles, me considerava um verdadeiro tradicionalista. E digo mais, um tradicionalista que não via como era possível a indústria das DLCs, microtransações e outros meios de ganhar dinheiro pós-compra de jogos poderiam existir.

Porém, isso tudo viria a mudar em um processo que começou em uma bela tarde de domingo de 2014, logo após eu receber em casa meu bom (e agora velho) iPad. O ponto de partida foi um simples e inocente download de Theatrhythm Final Fantasy adaptado para iOS, que segue o sistema “tome aqui um punhado músicas e compre o resto”.

Claro que eu pensei que esta estratégia não funcionaria comigo. Logo eu, “O Tradicionalista”, “O senhor das coleções físicas”, “Aquele que tudo sabe”, “O inabalável”. Esbaldei-me por alguns meses com o pouco que me foi dado e já estava de certa forma satisfeito em fazer alguns poucos rankings S nos níveis mais altos do jogo. Foi quando eu vi que entre as opções de compra estava um bundle com músicas de Final Fantasy VIII, das quais uma das canções era Fisherman’s Horizon, uma das minhas favoritas.
"Sinto cheiro de dinheiro fácil mais à frente, vamos Fran!"
Após analisar e deliberar muito sobre se deveria ou não fazer o investimento, o baixo preço da coleção de quatro músicas me pareceu justo e resolvi gastar meu rico dinheirinho. Pronto, estava dada a largada para a loucura. “Bundle com músicas de Final Fantasy VI? Claro!”, “Coleção com as melhores músicas de Final Fantasy XIII incluindo a magnifica Saber’s Edge? Me vê uma, por favor!”.

Logo o gasto passou para outras coisas dentro do jogo que não eram tão vantajosas assim. “Olha, só eles têm We Have Arrived de Final Fantasy Type-0. O jogo já vai sair, então acho que eu posso pegar”. O que veio depois foi ainda mais extremo. “Caraca, boneco do Balthier!”, “Boneco da Faris!”, “Desperate Struggle!”, “Aerith’s Theme!”.
Olha essa carinha da Rinoa, e só por $1,99...
E foi aí, poucos dias atrás ao ver os meus gastos com o dólar no ano – em tempos de câmbio absurdo, diga-se de passagem – que a ficha caiu. Fui mais um que acabou caindo no conto das microtransações. Comprei várias músicas avulsas, pacotes de quase todos os jogos e uma série de personagens.

Para comprar o jogo inteiro na versão iOS é necessário desembolsar $143.03. Isso mesmo, dólares! Multiplique isso por quatro e caia no chão. Graças a Deus meus gastos não chegaram aos três dígitos, porém, foi o bastante para que eu me alarmasse e ficasse bem envergonhado com meu papel de trouxa (quero minha carta de Hogwarts já). A Square-Enix trocou o job para Thief e fez a festa, mas agora já me recuperei.
Música de Final Fantasy X-2? Não, obrigado!
Entretanto, nem tudo é sofrimento. O jogo é muito bom e me rendeu sim muitas horas de diversão e a proposta de deixar o jogador escolher o que ele precisa ou não também é bastante interessante. A lição que eu tiro disso tudo é: as microtransações nem sempre são tão ruins, mas se você é um daqueles que é facilmente tomado pela empolgação e tem mão aberta, fuja a todo custo! Ou melhor, sem custo!

Revisão: Robson Júnior
Capa: Peterson Barros
Thiago Caires escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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