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Análise: Rainbow Six Siege (Multi) retoma o shooter inteligente

Último título da série de jogos táticos de tiro da Ubisoft, Siege entrega multiplayer repleto de possibilidades estratégicas.


Se pudesse apontar um título que estabeleceu os alicerces do shooter tático moderno, certamente minha escolha seria o primeiro Rainbow Six. Nascida no longínquo ano de 1998, a franquia foi, ao longo do tempo, sinônimo para jogo de tiro inteligente. Esse aspecto estratégico, embora sublimado em sua subsérie Vegas, retorna renovado no último título da saga: Rainbow Six Siege.


Multiplayer é a bola da vez

Como já sabido por muitos, ao contrário de games anteriores da série, Siege não apresenta uma campanha single player nos moldes clássicos — isto é, com roteiro e cutscenes integradas à história. Ao invés disso, os modos para um jogador parecem mais voltados à preparação para o combate multiplayer, amplamente acessado por sua base de usuários.

Nesse sentido, Siege aposta numa fórmula semelhante à de Counter-Strike ao focar seu produto no embate entre times estratégicos controlados por humanos. Os outros dois modos presentes no jogo, Terrorist Hunt e Situations, rendem certo desafio e diversão no confronto com bots, mas se sobressaem por seu aspecto didático ao apresentarem os dez mapas do jogo e as diferentes personagens controláveis, conforme mencionado.

A modalidade Terrorist Hunt, embora possibilite a formação de um time humano para confrontar a AI, é pouco acessada e, por isso, conta com problemas de matchmaking, como discutido em algumas postagens no reddit. Dada a situação, joguei-a exclusivamente sozinho. Também encontrei dificuldade para adentrar uma partida no modo multiplayer, mas em menor escala e sem comprometer gravemente minha experiência.


A omissão da campanha pode desagradar a veteranos de Rainbow Six. No entanto, dado o contexto da ascensão dos eSports e do próprio crescimento dos games multiplayer, encaro a decisão da Ubisoft como algo positivo: ela faz sentido no mercado atual e confia em um modelo de jogo menor, mas efetivo e preocupado em entregar um gameplay consistente.

As partidas são jogadas por times de ataque e defesa. Seus objetivos circundam diferentes objetos: reféns, uma ameaça de bomba, um contêiner químico, etc. Embora haja esse tipo de variedade, o título não oferta maiores possibilidades de combate com modos mais discrepantes, algo que enriqueceria a experiência e renderia mais horas de jogo.

Cada passo, cada tiro conta

Outra ausência em Siege que dividiu jogadores foi a clássica fase de preparação, em que se decide por onde cada unidade de combate irá entrar no mapa. Essa faceta, marca da franquia, aparece simplificada nas partidas ranqueadas e no modo Terrorist Hunt, mas não é por isso que o novo Rainbow Six se torna muito menos estratégico que seus predecessores.

Siege é um jogo em que cada ação deve ser pensada com antecedência. As personagens se movimentam lentamente e o recarregamento das armas é demorado. Ao contrário de outros jogos de tiro modernos, como Call of Duty, o combate deixa de ser decidido no reflexo e passa a se definir pelas rotas traçadas por cada um. Dado o contexto da franquia, isso se mostrou efetivo e me levou a adaptar a minha forma de jogar — sempre a buscar ângulos com cobertura e visão para alvejar adversários.



Por incrível que pareça, Siege é um jogo em que poucos tiros são dados. O enfrentamento costuma ser súbito e letal para um dos lados. Portanto, frisa-se novamente a importância da busca por posições favoráveis no mapa. Algumas funções presentes no título realçam esse aspecto, como a possibilidade de inclinar a mira em 40 graus para checar os cantos das paredes. No mesmo sentido, ao utilizar o gancho do rapel, o game permite que o jogador se posicione de maneiras diferentes para alcançar maior visão.

Além disso, as classes desbloqueáveis exercem mudanças significativas no jogo com suas habilidades. Assim como os times, os tipos de soldado se dividem em atacantes e defensores. Esse aspecto do game se mostrou balanceado, ainda mais tendo em vista que diferentes abordagens podem ser escolhidas por cada time para alcançar seu objetivo. Vale salientar que, sob essa óptica, o valor de cada unidade da equipe aumenta consideravelmente: a perda de um jogador com determinada função no início da partida pode ser crucial na derrocada do time inteiro.

“Destruir legal!”

Um dos fatores que mais me chamou a atenção em Siege foi a extrema customização que o jogador pode realizar nos ambientes das partidas. A exemplo dos recentes jogos da série Battlefield, o último Rainbow Six permite que o usuário destrua estruturas para usar a seu favor. Por exemplo, uma parede pode ser perfurada por uma bala de alto calibre, abrindo uma fresta outrora inexistente que permite o ataque por outro ângulo. Enalteço a enorme precisão que o game dá ao jogador para realizar isso, fundamental para que essa mecânica seja efetiva, e não irritante.

Se esses caras são o resgate, imagine os terroristas...


A alternativa supracitada se mostrou salvadora ou mortífera em muitas partidas para mim. Quando era eu quem estava a puxar o gatilho enfurnado em um ínfimo buraco, a sensação era de completude. Em contrapartida, nada é mais frustrante do que ser eliminado com poucos minutos de jogo — e, atentem, as partidas de Siege demoram até chegar em um confronto mais consolidado — por um inimigo escondido em um canto inesperado.


Considerações finais

Rainbow Six Siege abre um novo capítulo para a franquia da Ubisoft. Como mencionado, algumas das escolhas da empresa causaram furor e dividiram fãs da série. A meu ver, a opção por um jogo que se desenrola quase que estritamente com vários usuários foi uma decisão acertada e que me rendeu (e renderá!) muitas horas de diversão.

As mecânicas adicionadas para enaltecer o lado estratégico do game se mostraram precisas e condizentes com o andar cadenciado das partidas. Siege leva o jogo de tiro para o lado da lógica e das escolhas que não têm volta. Para tanto, ter muitas possibilidades de ação e posicionamento no game é fundamental para que ele seja bem-sucedido em sua proposta.



Embora existam microtransações no game, nada do que é adquirível na loja da Ubisoft se mostrou como um elemento de desbalanceamento in-game. O avanço no título se dá de forma justa — cada soldado é desbloqueável por meio da troca de pontos que são adquiridos conforme o jogador dedica seu tempo a Siege. Em poucos dias, o usuário obtém acesso a todas as funcionalidades do título.

Aos entusiastas de shooters mais elaborados, lentos e estratégicos, Rainbow Six Siege se mostra uma boa alternativa. Apesar de seus problemas de matchmaking, que já deveriam ter sido melhor solucionados a essa altura, o título rende horas de diversão tática e o recomendo.

PS: Em minha experiência, encontrei muito mais jogadores prestativos e que utilizaram seu microfone para bons fins do que para empregar linguajar chulo. Seria um sinal de novos tempos?

Prós

  • Multiplicidade de alternativas estratégicas;
  • Bom balanceamento entre unidades de ataque e defesa;
  • Ambientes destrutíveis funcionam muito bem.

Contras

  • Apresenta problemas no matchmaking, especialmente em Terrorist Hunt;
  • Ausência de single player elaborado pode desagradar a alguns;
  • Escassez de outros modos multiplayer.
Rainbow Six Siege — PC/Xbox One/PS4 — Nota: 8,0
Versão utilizada para a análise: PS4 

Revisão: Jaime Ninice
Capa: Felipe Araújo 
Luiz Roveran é mestrando em música pela UNICAMP. Busca em sua produção promover a interdisciplinaridade entre os games e outras mídias, como o cinema e a literatura. É um dos fundadores do Pulo Duplo, toca com o Co-Op Players e é ostensivamente são-paulino.

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