Jogamos

Análise: Em Oxenfree (PC/XBO) brinque de pique-esconde com o sobrenatural

Um adventure com decisões que mudam o decorrer do jogo fica ainda mais tenso em uma ilha deserta que esconde um acidente esquecido da 2ª Guerra Mundial.


O novo estúdio Night School, composto por ex-desenvolvedores da Disney e da Telltale, causa uma maravilhosa primeira impressão com esse thriller espinhoso e mórbido, mas apresentado com personagens alegres que carregam esperança e enfrentamento. O seu esquema de luzes também é magnífico e casa perfeitamente com a música eletrônica suave, que se dilata e retrai, como um coração enfermiço pulsando.

História sinistra

Lançado em 15 de janeiro, Oxenfree surpreende em todos os sentidos, mesmo sendo uma homenagem aos filmes de terror adolescentes dos anos 80, como Poltergeist – O Fenômeno (1982), a história consegue fazer a exposição dos personagens e logo tencionar tudo. Funciona assim: um grupo de pré-adolescentes se reúne numa ilha desabitada para passar o final de semana bebendo, fumando e jogando conversa fora na frente de uma fogueira, nada fora do normal. Um dos personagens traz um rádio de pilha para sintonizar com a frequência do programa de rádio de uma amiga deles, que dedicou uma trilha sonora para o passeio.

Subitamente, outras...coisas começam a ser sintonizadas, se manifestando em colagens de voz, chiados, distorções e loops temporais. O que era para ser um passeio tranquilo com os amigos acaba se tornando uma caçada por justiça e uma solução de uma dívida histórica que começou com um acidente esquecido da Segunda Guerra Mundial. Como não podia deixar de ser, acaba se tornando uma luta pela sobrevivência também, até o sol chegar. Ainda assim, Oxenfree consegue espaço para introduzir o nascimento da relação entre Alex, a protagonista, e Jonas, seu novo meio-irmão, que passam seu primeiro tempo juntos. Então tem todas as questões de convivência, relações sociais, aceitação e funcionamento de grupos, que são bem mais problemáticas na idade deles.

Os próprios personagens demonstram ser muito mais profundos e carregam dramas pessoais e perdas bem mais sinistras do que aparentam ter. Você descobre que eles possuem muito mais camadas e fardos. Claro, se o jogador fizer as perguntas certas. Suas decisões nos diálogos influenciam a forma como os eventos interpessoais acontecem e como as pessoas te consideram — pouco ou pacas, carismático ou nojento.

Até o silêncio aqui é encarado como um posicionamento, então é importante botar os fones e se focar no andamento das frases, até porque a voice acting é incrível, são três dubladores que já trabalharam nos jogos da Telltale se revezando para entregar vida aos personagens.

Comunicação olho no olho 

Diferente de The Walking Dead (Multi), onde normalmente existe um tempo generoso para responder às perguntas, em Oxenfree o tempo é bem mais curto e logo de cara você deixa muitas frases sem resposta se não for tão fluente em inglês ou se não estiver concentrado. Longe de ser uma dificuldade, isso é mais um destaque do lançamento: como ele consegue emular a comunicação humana mesmo sem incluir palavrões e (muitas) gírias. Tudo é muito elegante e ainda assim coloquial.

Claro que a dublagem ajuda, mas dar vida e personalidade, diferenciá-los uns dos outros mesmo não mencionando escrachadamente seus gostos e qualidades é uma tarefa difícil, ainda mais numa história cuja campanha demora só de 4 a 8 horas dependendo do seu empenho. Isso porque existem segredos espalhados pela ilha e você deve colar os pontos juntando anotações e sobras de áudio.

Outra característica importante é o corte. Quando conversamos com alguém muitas vezes atropelamos a fala da outra pessoa se estivermos ansiosos, entediados ou amedrontados. Pode ser um hábito infeliz também, ser narcisista a ponto de não conseguir se conectar com as falas das outras pessoas. Independente da origem, ruídos na conversa acontecem. E poxa, são vários pré-adolescentes animados com uma viagem de final de semana, é natural que eles interrompam uns aos outros. Por isso mesmo, em Oxenfree a fala não ocorre como numa peça de teatro, os personagens muitas vezes não chegam nem a completar as suas frases, mas elas são entremeadas pelas réplicas dos demais, criando um panorama realista, verossímil e imersivo.

De noite as luzes brilham mais forte

Olhar para esse jogo é admirar uma obra de arte. Parece um encontro entre os clipes do Mac DeMarco e o Nausea, do Craft Spells (abaixo), com toda a estética VHS e os cortes bruscos entre as filmagens. Os cenários lembram a capa do King of The Limbs, do Radiohead, rabiscados com muito crayon, como se a floresta fosse macabra, ok, mas é um final de semana entre amigos, e não tem nada melhor do que isso. Finalmente, tem uma iluminação difusa da Disney que é linda de morrer, com o perdão do trocadilho.
O esquema de iluminação vai te deixar espantado e boquiaberto várias vezes, você vai ficar encarando os cenários procurando entender como algo tão sombrio consegue ser ao mesmo tempo tão brilhante e tão magnífico ao mesmo tempo. O uso de luzes e sombras nos espaços fechados somado ao uso equilibrado de cortes aleatórios te insere no clima do jogo. O clima se resume às distorções e ao abandono da ilha, a consequente expansão da natureza, a chuva e outros elementos que evocam abalos no moral, uma sensação de desproteção. Isso combina com os personagens enlouquecendo com o passar das horas e o seu sentimento de impotência e insegurança. Felizmente, os diálogos conseguem segurar a barra sendo espirituosos e sarcásticos, evitando, dessa forma, uma bad ou uma leve depressão.

Metrônomo

Lânguida e suave na medida certa, a eletrônica synth-pop é meio que um pêndulo, te deixa mesmerizado e te encaixa dentro desse universo, mas não é como se você ficasse babando em um canto ouvindo a música pulsar ou algo assim.

Você fica perambulando pela ilha juntando as peças do quebra-cabeça e montando-os até costurar os furos, curtindo a vibe lúdica de descoberta e aventura. Ao mesmo tempo, Oxenfree é uma experiência diferente, os elementos do jogo funcionam tão bem juntos, como em um relógio suíço, todos são extremamente complementares.

A resolução dos puzzles é quase que totalmente sonora, e não traz muitas dificuldades. Você deve girar o disco do rádio para mudar de faixa e sintonizar com entidades, distorções, outras músicas de ragtime (sim, você pode mudar a trilha do jogo a hora que quiser) e......radionovelas. Esse jogo tem de tudo. A única parte ruim é que como ele se calca no andamento tranquilo da trama, muito se perderia do sentimento de urgência caso o jogador ficasse empacado numa determinada parte. Então é meio que uma questão inerente o fato de não ter muita dificuldade, mesmo isso sendo um pouco negativo.



Uma questão que é realmente negativa, e vai ser o único demérito apontado, é o fato de que o save é único, mesmo com as escolhas influenciando o resultado e determinando qual dos múltiplos finais vai ser o obtido a todo instante. Se você escolhe uma resposta em especial pode estar perdendo a chance de ver os outros finais, e as vezes você deixa de responder porque a velocidade do texto é muito rápida mesmo. Mas claro, uma cenoura colocada ao contrário não estraga todo o boneco de neve, é só um pequeno detalhe.



Mesmo com transes e metalinguagem, tudo em Oxenfree é coeso e bem amarrado. É impressionante que tentar falar a respeito dos seus detalhes passe a impressão de fatiar uma flor com um sabre, tudo é conectado demais para ser separado sem deixar algo faltando nas partes. O seu andamento é suave e confortável, mas nem por isso a história consegue ser ignorada. Provavelmente por ser uma pequena injustiça histórica e aí resida o valor humano que estimula engajamento. Talvez por ser uma homenagem aos filmes adolescentes, o roteiro consegue ser casual e grandioso ao mesmo tempo. Texto, direção de arte e trilha sonora funcionam na mesma faixa, em harmonia.

Se você é fã de mistério, curte música eletrônica ou simplesmente se deixa arrebatar por obras de arte, se puder pôr as mãos nessa belezinha, tenho certeza de que vai começar 2016 com o pé direito. Só tome cuidado para que ninguém puxe os seus pés quando for dormir. Oxenfree está disponível para PC e Xbox One, aproveite.


Prós

  • Personagens muito bem construídos;
  • Visual lindíssimo, iluminação sublime;
  • Música envolvente e suave. E se não curtir dá pra mudar a trilha no rádio;
  • História intrigante e casual. mas com um tom de urgência para te deixar pilhado de jogar até o final;
  • Comunicação de verdade, diálogos com cortes e intromissões.

Contras

  • Puzzles simples demais;
  • Sistema de save único dificulta a vida dos completionistas.
Oxenfree — PC/XBO — Nota: 9,5
Versão utilizada para análise: PC
Capa: Felipe Araújo 
Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no GameBlast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais