Copa América de Starcraft II: a grande aposta

O que o novo torneio de StarCraft II tem a dizer sobre o cenário competitivo brasileiro.

Com premiação muito mais alta que dos anos anteriores e garantia de vaga no WCS Championship para o vencedor, começam a rolar os dados para um dos mais arriscados projetos no cenário latino-americano.


Mais de 150 mil reais divididos entre três temporadas e a grande final do torneio estão oficialmente prontos para serem disputados por qualquer jogador residente na América Latina. O torneio mescla fases de grupos e mata-mata, pontuando os melhores colocados para, ao final, selecionar os oito jogadores com maior pontuação para seu grandioso encerramento.

Ganhadores da primeira temporada da Copa América 2015. Receberam, respectivamente, US$ 3.500, US$ 2.000, US$ 1.500 e US$ 1.000. 

Salta aos olhos, antes de mais nada, a diferença nas premiações, que saltou de 10 para 40 mil dólares — uma verdadeira bolada —, mas tamanha premiação traz consigo grandes desafios a serem superados, entre eles, o nível competitivo extremamente díspare e a baixa assiduidade da comunidade latino-americana.

O nível competitivo latino-americano

Ao se anunciar um dos torneios mais tradicionais das Américas em versão ampliada e engrandecida, se verifica momento estranhamente agridoce na região: enquanto o cenário internacional cresce cada vez mais, o nosso aparenta ter estagnado. Existem, atualmente, em torno de vinte jogadores responsáveis por estabelecer um cenário relativamente competitivo e equilibrado, com dois outros jogadores que o desequilibram completamente: Major e Kelazhur.

Em sua última edição, Major apareceu em primeiro lugar e Kelazhur, em segundo, em todas suas edições à exceção da terceira temporada — na qual Major perdeu por W.O. Esse fato demarca claramente o nível muito mais avançado destes jogadores quando comparados com os demais, tornando os resultados relativamente previsíveis e apenas agregando público para satisfazer a uma curiosidade simples de qual dos dois jogadores terem embolsado o maior prêmio da temporada.

Existe, no entanto, a possibilidade de quebra de tal monotonia, personificada pela nova expansão do Starcraft II — o Legacy of the Void. Com lançamento em novembro do ano passado, apenas agora grandes torneios começam a ser jogados na nova expansão, não existindo, até o presente momento, uma maneira "correta" de se jogar, resultando em várias composições novas sendo colocadas a prova contra outras composições igualmente variadas.

Legacy of the Void se joga... Assim?

Não existe momento melhor para alguém se tornar excepcionalmente bom em um jogo do que quando todas outras pessoas — profissionais ou não — não fazem a menor ideia do que pode ou não funcionar, tornando as mecânicas e memória muscular adquiridas na expansão anterior muito menos impactantes. O próprio Brasil tem uma boa cota de jogadores nas mais altas ligas de Starcraft II (Mestre e Grão-Mestre), bastando treinar e experimentar para objetivamente melhorar no jogo.

Claro que, da forma como se apresenta o cenário atualmente, é faticamente inviável alguém se dedicar 100% a um jogo. Mesmo que considerado internacionalmente como eSport, pelo simples motivo de não ser possível no Brasil (e na América Latina de forma geral), ainda, um jogador retirar seu sustento de uma carreira de atleta cibernético profissional.

A baixa assiduidade no cenário

Outro problema a se considerar são as relativamente poucas inscrições no torneio. Em qualquer competição de grande porte tal qual a Copa América existem brackets de qualificação para entrada no torneio em si. No caso, são ofertadas 256 vagas assim como se fez no ano passado, havendo sido preenchidas entre 71 e 166 delas a depender da temporada jogada.

No passo em que se pode argumentar a expressividade de 166 inscrições de 256 possíveis, deve também se atentar para a baixa expressividade de apenas 71 inscritos. Tal variação mostra certa volatilidade nos jogadores latino-americanos de fora do "eixo" dos melhores da região (que normalmente compõem os grupos finais das temporadas).

A expectativa, claro, é que o aumento da premiação atraia mais jogadores. Porém, sempre é necessário ter em mente o precedente e tentar revertê-lo. A estratégia, infelizmente, não é muito bem definida, já que não se trata de ciência exata. Talvez qualificatórias com datas e horários mais interessantes, por exemplo.

Caso similar ocorreu no recém-terminado Torneio das Nações 2015, onde as qualificatórias ocorreram em uma terça feira às 22:00hs. Em um cenário como o descrito, onde os jogadores têm de balancear sua vida pessoal e profissional com o jogo, torna-se um horário inviável para a esmagadora maioria dos possíveis competidores.

Enfim, sugestões muitos podem ter, mas com certeza já representam um passo na direção correta, na busca de realizar alguma mudança.

A perspectiva, no entanto, pode ser muito boa

Aproximando-se do fim desta análise, se nota um fator aparentemente positivo nos problemas apontados: todos eles são relacionados com seus jogadores, podendo de fato ser ultrapassados pelos mesmos.

Algumas iniciativas para tentar aumentar a competitividade e o nível do cenário se verificam com surgimento ou revitalização de campeonatos sem premiação (como é o exemplo do Sábado4Fun), além de meios de integração entre a comunidade com a criação de um servidor no serviço de mensagens de texto e voz, Discord.

Em paralelo, é importante a renovação do cenário, com entrada de novos jogadores e do aprimoramento dos já existentes, ambos podendo estar diretamente relacionados com um grande torneio com destaque tão grande, a Copa América.



O saldo, assim, pode ser muito positivo e, definitivamente, as adversidades serão enfrentadas de peito aberto, para a busca de sucesso da grande aposta realizada pela Copa América.
Caio Bexiga escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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