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Análise: Em Persist (PC/Android) perca membros, mas não perca a cabeça

Nesse diferente platformer, quanto mais a divindade se enraivece, mais as fases ficam desafiadoras. Até aí tudo bem, mas pular sem braços para nadar ou sem pernas vai ser difícil.


Grandes histórias não precisam necessariamente ser extensas. Elas podem ser subjetivas o bastante para permitir que a interpretação flua e dê novos significados para ela. Mas como não dar spoilers de um jogo mobile que pode ser zerado em menos de 15 minutos?


Vou tentar: Persist é um jogo gratuito sobre um espírito que entra no santuário de uma divindade em busca de perdão, para tentar sair do limbo e atingir um plano superior de existência. Ela afirma ser impossível, que o espírito não merece redenção por causa da gravidade dos crimes que ele cometeu, independente do remorso. Esses crimes podem ser apenas imaginados, já que nada é especificado em nenhum momento, apenas sugerido, com algumas pinceladas do que ele fez apresentadas durante o final do jogo, e aí é que está o grande trunfo do roteiro.

Dois dias de desafio

Jussi Simpanen, da Adventure Islands, criou o jogo durante o 26º Ludum Dare, em abril de 2013. Durante essa competição de criação de jogos indies temáticos os programadores têm que começar um projeto do zero e terminar a coisa toda durante um final de semana. Ou seja, criar um jogo do nada, tendo apenas 48 horas para fazer tudo sozinho (há uma categoria para grupos, onde há mais tempo para a elaboração do game).



Se muitos roteiristas têm bloqueios para criar uma história do nada, ou precisam de muita pesquisa primeiro, imagina só criar toda narrativa do zero, com o tema revelado em cima da hora. Isso mesmo, o tema é revelado apenas no começo do evento, dificultando mais as coisas. Surpreendentemente, Simpanen conseguiu ser minimalista sem ser medíocre, ainda mais em um jogo de plataforma, um gênero normalmente calcado mais na mecânica do que na história.


Ponto de vista divino

Podemos pensar também que, mais do que uma opção narrativa, não revelar os crimes do protagonista poderia remover a credibilidade ou a empatia da história. Afinal, o julgamento dos deuses é diferente do julgamento dos humanos, um deus pode se ofender por alguma coisa estúpida ou até injusta do ponto de vista de um ser humano. Quer dizer, se fosse dada a um ser qualquer a capacidade de ser onipotente, ou seja, fazer tudo o que desse na telha, bondade ou compreensão possivelmente estariam no final da lista de prioridades.
Perdão se Deus "quisé"
Em vez disso, vem à minha cabeça crueldade, ressentimento e exibições de força. Como punição pelos crimes, o protagonista perde gradualmente seus membros. E quando perde a cabeça isso ocorre em uma passagem agonizante, onde você deve ser esmagado por espinhos e não há escapatória. A jogabilidade varia à medida que os órgãos vão desaparecendo, gerando várias situações criativas que só são possíveis graças ao roteiro inteligente e as crescentes demandas de sacrifício (ou sadismo) da divindade.
Aspirina resolve
A onipotência dos deuses em relação aos humanos fica bem ilustrada em um episódio da mitologia grega, onde Zeus amarra Prometeu numa pedra e faz uma águia diariamente devorar seu fígado só porque ele roubou um pouquinho de fogo dos deuses para se aquecer e facilitar seu ofício de carpinteiro. Os deuses são insanos, pode também ser só birra porque a raça humana não conhecia o fogo ainda no mito de Prometeu e os deuses podem ter achado um insulto eles roubarem em vez de descobrirem por conta própria. E pode ser visto como ainda mais cruel pelo fato de nenhum outro deus ter feito nada a respeito.

Como é dentro do abismo?

Com um visual muito caricato, o criador conta que tentou evocar as fases noturnas do Super Mario Bros de NES, com uma paleta limitada de cores. Funcionou, já que ele consegue captar toda a perdição e a escuridão do abismo onde o protagonista foi lançado.


A medida que os abismos vão aumentado, e as fases ficando mais perigosas e mais restritivas, o piano acelera e passa de mais melancólico para mais dramático, sendo muito bem inserido.

A perda dos membros do protagonista pode muito bem ser uma referência a Earthbound (SNES), quando Poo, o príncipe do reino Dalaam, perde seus membros para o antigo espirito de sua linhagem, encontrado durante a sua meditação. O espírito antigo quebra suas pernas, arranca seus braços para oferecer aos corvos, tira suas orelhas, olhos e, por fim, a mente.

Persist é uma pequena demonstração de como objeções sempre serão levantadas no nosso caminho. Mesmo assim, devemos persistir para garantir uma vida melhor, um repouso melhor para nossas almas, mesmo que todos digam que isso é impossível ou que não somos bons o bastante. Quero desejar com essa análise um feliz ano novo, persistam buscando seus sonhos loucos, galera, e nunca deixem de ter esperança. Enquanto não acontece, deem uma chance para esse belo jogo e baixem, ele é de graça.

Prós

  • História simples, mas que desperta muita empatia e diversas interpretações;
  • Jogabilidade muito criativa, combina com a narrativa e funciona como um relógio suíço;
  • Gráficos muito lindos dentro do estilo que se propôs;
  • Trilha sonora bem adaptada.

Contras

  • Muito curto, dá para ser finalizado em 15 minutos ou menos.

Persist - Android/PC - Nota: 8.5

Revisão: Gabriel Verbena
Capa: Peterson Barros
Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no GameBlast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

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