Analógico

Jogue a favor das mulheres e dê game over no preconceito

Preconceito, perseguição e assédio, essa é a dura realidade das mulheres gamers.



De acordo com pesquisa realizada em 2015  pela Sioux em parceria com a Blend, as mulheres representam 47,1% dos jogadores brasileiros. Acredita-se que pelo menos uma vez na vida elas sofrerão algum tipo de preconceito por jogar videogames.

Brasil, um país de jogadores

Nosso país é o 11º maior consumidor de games do mundo e o 4º maior em números de jogadores. Infelizmente carregamos o fardo de sermos criados com a ideia errônea de que meninos jogam videogame e meninas brincam de boneca.

Em agosto de 2015, a Ongame, publisher de jogos online tais como Point Blank (PC) e Aika Online (PC), lançou a campanha “Jogue como uma mulher” visando combater o machismo nos games. De acordo com a campanha, o número de mulheres gamers só tende a crescer, e mesmo com o aumento, apenas 0,40% possuem comportamento tóxico.

A campanha convida as jogadoras a tirarem fotos em momentos de jogatina e divulgarem nas redes sociais com a frase #joguecomoumamulher. Atraindo um grande público no início, várias youtubers aderiram à causa e falaram sobre o assunto em seus vlogs, até uma canção de rap foi escrita com a temática, mas estamos no final do ano e já não há mais sinal da luta contra o machismo nos games.


A realidade nua e crua

Desde quando o mundo é mundo e os videosgames surgiram no mercado, junto também surgiu o preconceito. Em sua maioria, as propagandas sobre videogames sempre retrataram meninos, quando havia meninas na cena, eram acompanhadas da família inteira.

Atire a primeira pedra aquele que nunca chamou sua irmã ou prima de noob numa partida de videogame. Até este que vos escreve, em minha infância, ridicularizava minhas primas por não saberem jogar direito. Em uma corrida de Mario Kart, perder para uma menina era porque ela tinha sorte; numa luta de Street Fighter 2, era porque o controle estava ruim. Agora pensem comigo: como uma menina, que não cresceu na frente do videogame, conseguiu vencê-lo? A resposta é simples: dom natural para games.

Todos nós sabemos que existem pessoas que se dão bem com games e outras que não conseguem fazer o Mario pular o penhasco. Todo ser humano, homem ou mulher, é bom em algo, por que seria diferente nos games?
Girls HK. Time de e-sports composto apenas por mulheres.

Perseguição e assédio

Se já não bastasse o preconceito que as mulheres sofrem, elas são assediadas ao participarem de grupos compostos por maioria masculina. Cantadas, convites indecentes e perseguições fazem as mulheres terem pesadelos e muitas vezes largar o hobby.

Varias mulheres já foram alvo da frase: “Manda nudes que lhe dou este item”. Em uma entrevista com a jogadora Ana*, ela nos relata: “Já sofri assédios do tipo, quererem saber meu face, Skype, ao me identificar como mulher. Já me mandaram "lavar a louça" quando numa discussão onde eu era a única mulher, estava ganhando na argumentação. E já vi membros homens cotocos de um core serem ajudados, sem motivo plausível, e eu deixada de lado. O último caso que eu vi de preconceito, que me abalou muito, foi uma garota do nosso core ter passado por um estupro no passado, e ao falar sobre, foi totalmente desacreditada, (aquelas frases de sempre, "tava na rua tal hora", "bebeu porque quis", "vai ver provocou", "será que foi estupro mesmo?") e após sua saída, isso virou piada durante meses pelo restante dos membros. Durante sua permanência, eu via uma das mulheres do core o tempo todo usando termos de "vamos estuprar esse boss", e estava na cara que ela não fazia isso "por costume, ou sem querer". Foi uma situação muito incomoda e triste”.
Felicia Day na websérie The Guild.


Atitudes contra a mulher gamer não se restringem apenas dentro do jogo, as redes sociais também são palcos de assédio e preconceito. No Facebook existe um grupo privado composto apenas por mulheres jogadoras de World of Warcraft. Elas tomaram essa decisão pois era impossível socializar nos grupos públicos, em que a maioria esmagadora dos homens as atormentavam.

De acordo com Bia* : “Inclusive o nosso grupo foi feito com intuito de fugir dos caras que zoavam as meninas no post dos outros grupos em geral, sempre que postavam algo vinha um grupinho mandar lavar louça, falar que mulheres não jogam tão bem quanto homens ou coisas do tipo”. Além dos homens, também há mulheres com atitudes preconceituosas, como Bia relata na continuação: “Eu não sei te dizer se isso só acontece por aqui, mas sei que por aqui eu já li diversas reclamações e gente falando merda nos grupos e é foda de ver, sabe? Não gosto de me envolver, porque sei bem a merda que dá quando alguma mulher tenta defender a outra. Inclusive tem outras gurias que são 'machistas' por assim dizer. Se uma guria vai defender a outra, já chega uma outra e diz "Lá vem as feminazi", saca?”. Lia*, também jogadora de World of Warcraft, acrescenta: “O preconceito não e formado apenas por garotos, mas também por muitas garotas e a ideia foi manter um grupo pra agregar as meninas e não segregar”.
No Japão, 66% dos gamers são mulheres.

Gamers contra o preconceito

Se de um lado há histórias tristes, do outro lado podemos ver um pequeno grupo trilhar o caminho a favor da igualdade dos gêneros. Existem guildas sérias que conseguem reunir homens e mulheres no mesmo ambiente, sem que haja qualquer tipo de preconceito. Há inclusive guildas onde a liderança é ocupada por mulheres, que administram o grupo tão bem quanto os homens, senão melhor.

As mulheres estão presentes em vários games, seja MMO ou FPS, e disputam em nível de igualdade com os homens. O preconceito começa quando homens de cabeça pequena acreditam que são melhores que as mulheres, mas a verdade é que todos somos iguais, não é o seu gênero que vai determinar o quão bom você joga um game. Para se tornar um pró-player, é preciso muita dedicação.

E o amor nasce das mais sinceras formas de amizade. Não são poucos os casos de casais que se conheceram dentro do jogo e convidaram toda a guilda para a festa de casamento. Quando dois membros do grupo começam a fazer coisas juntos, várias vezes, pode ter certeza que algum amor está surgindo.


Para lutar contra o preconceito, é preciso conscientizar as pessoas que sexo, cor, raça e credo não definem caráter. Não se cale perante a injustiça,  juntos podemos mudar esse quadro e criar uma ambiente saudável para todos, tanto para homens quanto para mulheres.

Capa: Felipe Araújo
Revisão: Alberto Canen
Douglas Fubarion Marciano escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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