Blast from the Past

Lethal Enforcers (Multi) te colocava dentro da ação dos filmes policiais

Participe de tiroteios e conheça a polêmica por trás desse clássico jogo de tiro dos consoles e arcades.


Vamos voltar ao início da década de 1990. Diversos filmes policiais estavam arrasando nas bilheterias dos cinemas no período do final dos anos 1980 até ali, como as franquias Duro de Matar, Máquina Mortífera e Um Tira da Pesada. Histórias do gênero estavam em alta na sétima arte e, obviamente, eram um filão a ser aproveitado nos games. A Konami pegou o embalo no lançamento de Lethal Enforcers em 1992, inicialmente para arcades, inclusive se utilizando do título de Máquina Mortífera (Lethal Weapon no original em inglês) para associar seu jogo com o filme de forma indireta. O jogo foi marcante por apresentar gráficos realistas para a época e se tornou uma importante referência para os jogos de tiro, ganhando diversas versões para consoles e sequências.


Polícia na rua

Bem vindo à cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Para não fugir do estereótipo de policial norte-americano, o protagonista Don Marshall está em uma loja de donuts, saboreando as famosas rosquinhas estadunidenses. Sua folga para um café dura pouco, já que o rádio da polícia logo o chama para uma emergência. Ele (e um eventual parceiro, no caso de um segundo jogador) precisa impedir os diversos ataques na cidade, perpetrados por uma poderosa organização criminosa.
A mulher da foto é sua parceira no caso de um segundo jogador. Mas ela nunca ganhou um nome.

São cinco diferentes missões que compõem a história do jogo: Bank Robbery, Chinatown Assault, The Hijack, The Drug Dealers e The Chemical Plant. Cada uma se passa em diferentes cenários: enquanto Bank Robbery lhe coloca frente a frente com ladrões no interior de um banco; The Hijack lida com o sequestro de um enorme avião, por exemplo. Era possível selecioná-las em qualquer ordem, assim como acessar um modo de treinamento com alvos.

Licença para matar (alguns)

O objetivo em cada uma acabava sendo o mesmo: derrote os criminosos e evite atirar em civis ou outros policiais durante a missão até alcançar um chefe mais poderoso no final do estágio. Sua efetividade em cumprir esses objetivos gerava uma pontuação final, que podia lhe render uma promoção ou demoção de cargo. Você sempre começava como detetive, podendo ainda ser rebaixado para patrulheiro (o nível mais baixo) ou então ir crescendo para sargento, tenente, capitão e comandante conforme seu desempenho em cada missão. A questão de cargos, no entanto, não alterava elementos da jogabilidade.
O seu cargo ficava ao lado de seu nome na tela de pontuação final.


Tal jogabilidade era bem simples. Você sempre possuía um revólver com seis balas e, após gastá-las, bastava atirar fora da tela para recarregar a munição, que era infinita. Outras armas podiam ser encontradas, porém essas contavam com limite de uso. Atiradores de granadas e metralhadoras possuíam munição limitada; já outras armas, como rifles, pistolas automáticas e escopetas, podiam ser utilizadas até a hora que você fosse atingido por um inimigo. Quando isso acontecia, você perdia uma de suas vidas e a arma mais forte, voltando ao revólver original. Vidas também podiam ser perdidas ao atingir inocentes, durante o fogo cruzado, e adquiridas por fichas (somente na versão arcade) ou por acúmulo de pontuação.
A arma conhecida como Justifier era sua fiel companheira durante toda a ação.


O lado bom e ruim do fotorrealismo

Dentre jogos de tiro lançados inicialmente para arcades, Lethal Enforcers foi o primeiro a utilizar gráficos baseados em sprites digitalizados. Essa foi a mesma metodologia utilizada nos primeiros jogos da série Mortal Kombat, no qual personagens e cenários foram criados a partir da conversão de fotos de pessoas e locais reais. A técnica permitia a geração de gráficos realistas com recursos bem mais simples, muitos anos antes do uso de polígonos para criação gráfica de games.
Os personagens e cenários ficavam bem realistas ao utilizarem a técnica.


Isso causou revolta de pais na época por imaginar que seus filhos estariam sendo incitados à violência ao visitarem um fliperama. Se Doom causou um impacto ao fazer o mesmo contra monstros ou extraterrestres, imagine o tamanho do problema que foi ao ver as crianças da época usando um revólver para atirar em pessoas de verdade na tela. Para piorar, o arcade possuía um vídeo de instrução no qual você deveria atirar em uma mulher do lado de fora da cabine para recarregar a arma. Um senador norte-americano, inclusive, chegou a discursar e propor banir o jogo em 1993, junto a outros lançamentos da época considerados inapropriados, como Mortal Kombat. Felizmente, os jogos não foram banidos, porém a polêmica levou à criação do órgão de avaliação ESRB, responsável por definir a faixa etária para cada jogo. O orgão também é responsável por classificar outras mídias, como filmes e discos.
As diversas classificações por faixa etária feitas pelo ESRB começaram aqui

Corra que a polícia vem aí!

Além de ter sido um dos jogos responsáveis pela criação do selo da ESRB visto em qualquer caixa de jogo importado dos EUA, Lethal Enforcers ainda foi fonte e inspiração para novos jogos. O primeiro foi Lethal Enforcers II: Gun Fighters, lançado em 1994. A sequência levava a ação para outro clássico cenário de filmes, o Velho Oeste norte-americano. Os policiais protagonistas, por sua vez, davam lugar a xerifes. Os dois jogos receberam ports individuais para Mega Drive, SNES e SEGA CD, além de uma compilação contendo os dois para o primeiro PlayStation.
Encontrar a versão com a pistola em uma locadora costumava ser bem disputado na época


Posteriormente, a Konami lançou em 2000 Police 911 para arcades e PS2, visto como um “sucessor espiritual” da série. Aqui, a jogabilidade se utilizava de sensores de movimento que permitiam o jogador se abaixar para se proteger dos inimigos e recarregar a arma. Uma segunda versão de Police 911 saiu um ano depois. E, para ligar as duas séries, a empresa lançou Lethal Enforcers 3, somente para arcades, em 2004. Novamente, houve mudança na mecânica do jogo, já que aqui você podia utilizar um escudo para se proteger dos tiros inimigos.
Apesar da evolução gráfica no terceiro jogo, nunca esqueceram da clássica cena do avião!

O sucesso do jogo levou a outros lançamentos do gênero de tiro sem movimentação por parte do jogador (também conhecido por rail-shooter) por diversas empresas. Enquanto Area 52 e Revolution X mantinham o fotorrealismo, outros lançamentos como Virtua Cop, House of the Dead e Time Crisis iniciavam a transição para gráficos a base de polígonos. No entanto, talvez eles jamais tivessem sido lançados se não fosse o pioneirismo de Don Marshall para atirar nos bandidos.


Revisão: Bruno Alves
Capa: Felipe Araújo
Vinicius Eleno é formado em Administração de Empresas pela USP, e mestre em cultura inútil pelas experiências de vida. Desde 1993 gosta de explorar o mundo dos games em seu tempo livre. Pode ser encontrado reclamando da vida no Facebook e Twitter.

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