Tradutor de The Legend of Heroes: Trails in the Sky SC (PC/PSP) tentou se matar por dificuldade na tradução

Script do jogo é mais de 50% maior do que toda a trilogia de O Senhor dos Anéis.

A trilogia The Legend of Heroes: Trails in the Sky, lançado no Japão para PC e PSP entre os anos de 2004 e 2008, tornou-se um sucesso de crítica e vendas em território nipônico. A Falcom, empresa que desenvolveu a série, procurou a XSEED para localizar os jogos para o ocidente e assim expandir o seu público.


O primeiro jogo da série foi lançado no ocidente inicialmente apenas para PSP em março de 2011. Mesmo com os diversos elogios ao game, sendo comparado a clássicos como Grandia e Suikoden, suas vendas foram baixas. Entre as possíveis explicações para o fracasso, há o fato dele ter sido lançado no fim da vida do portátil no ocidente e até mesmo o nome considerado genérico. Todo o árduo trabalho, incluindo a editora Jessica Chavez ter trabalhado 14 horas por dia, 6 dias por semana, durante 9 meses, não foi recompensado e tanto a Falcom quanto a XSEED pensavam que não seria viável continuar a localização da série.

Como o primeiro jogo acaba em um suspense, os fãs insistiam pela sequência. Porém, depois de gastar tanto tempo e dinheiro com um jogo que falhou nas vendas, e com a sequência possuindo o dobro do tamanho, a XSEED não estava disposta a continuar com o projeto.

Ainda em 2011, Andrew Dice, co-fundador da Carpe Fulgur, ofereceu ajuda à XSEED para a localização de alguns jogos. A empresa foi bem-sucedida na tradução de Recettear (PC), vendendo mais de 100 mil cópias, e Trails in the Sky Second Chapter parecia uma opção perfeita. Depois de algumas negociações, as companhias entraram um acordo e Carpe Fulgur cuidaria da tradução enquanto a XSEED convenceria a Falcom a abrir o código e implementar o novo texto na versão de PSP.


Pelo fracasso do primeiro jogo, a Falcom se mostrou avesso à tradução de Second Chapter. A XSEED e a Carpe Fulgur fizeram um acordo não oficial, assim a Carpe Fulgur começou a trabalhar na tradução na esperança de que em breve a Falcom percebesse que lançar a série para o PC seria a melhor opção.

Dois anos se passaram e nenhum contrato foi firmado. Isso fez com que o progresso da tradução feita por Andrew Dice fosse lenta e inconstante, já que ele não sabia nem se o jogo seria lançado. Felizmente, por causa de uma sequência de sucessos da XSEED no PC, incluindo Ys Origins (PC), a Falcom finalmente cedeu e The Legend of Heroes: Trails in the Sky Second Chapter foi anunciado para o final de 2014.

O que deveria ser algo bom, revelou vários problemas. Os arquivos criados por Dice e seu sócio Robin Light-Williams estavam em um formato diferente do utilizado pela XSEED. Isso forçou Jessica Chavez a passar dois meses copiando e colando textos para o formato correto, entre outras correções. Além disso, apenas 50% do texto estava traduzido até então, o que fez a XSEED indagar por que a tradução não estava completa depois de dois anos.

O maior complicador, no entanto, foi que a tradução da Carpe Fulgur utilizava termos, conceitos e nomes diferentes daqueles utilizados na tradução do primeiro jogo, o que era inaceitável aos olhos da XSEED, já que a série possui um mundo consistente em que histórias e personagens são referenciados em todos os jogos.


O sentimento de fracasso levou Dice a um estado de depressão profunda, doença que ele já combatia desde a adolescência. Isto atrapalhou ainda mais seu progresso na tradução do jogo e ele começou até mesmo a ignorar os emails de Jessica Chavez, aumentando o estresse por parte de todos, principalmente de Chavez e seu sócio Light-Williams.

Esta situação o levou a uma atitude desesperada — em março de 2014, depois de fazer um cheque com o valor total de sua parte na empresa e deixar no apartamento de seu sócio, ele voltou ao seu próprio apartamento, fechou todas as janelas, deitou em sua cama, e apontou uma faca para seu próprio peito. Ao começar a empurrar a lâmina em direção ao seu coração, Light-Williams batia desesperadamente em sua porta. Dice decidiu que ele merecia pelo menos uma explicação. Light-Williams acabou convencendo seu sócio a desistir de tirar sua própria vida. Mais tarde, Dice desabafou sobre o ocorrido no blog da empresa.

As empresas cancelaram o acordo, e a Carpe Fulgur passou todo o trabalho feito até então para a XSEED, que cuidaria do restante. A tradução estava feita, mas a parte de edição, que adiciona personalidade para os personagens entre outros detalhes, estava apenas 50% terminada. Apesar do lançamento marcado para o final de 2014, logo ficou claro que isso seria impossível. Chavez levou mais meio ano para terminar a edição. É estimado que a o script tenha cerca de 716.401 palavras, sendo que para efeito de comparação, a trilogia completa de O Senhor dos Anéis possui 455.125 palavras.

Em janeiro de 2015 a edição estava pronta, e em março terminaram de implementar os textos no jogo. Depois disso, durante meio ano foi feito um rigoroso controle de qualidade, quando vários bugs ainda foram descobertos e a consistência dos nomes e terminologias foi confirmada. Esta etapa foi ainda mais demorada porque a versão de PSP precisava passar pela Falcom, que esteve bastante ocupada neste ano.
Entre os bugs, havia textos que aumentavam de tamanho.

Em 29 de outubro de 2015, The Legend of Heroes: Trails in the Sky Second Chapter finalmente foi lançado para PC e PSP. Todas as dificuldades envolvendo as traduções dos jogos da série levaram a XSEED a temer a "a maldição de Kiseki", sendo que Kiseki é o nome de Trails in the Sky no Japão.

Como curiosidade, a XSEED anunciou no Twitter que ao contrário da versão de PSP do primeiro jogo da série, o lançamento da versão de PC, que aconteceu em 2014, foi um sucesso. Segundo a empresa, foi o mais bem sucedido lançamento da empresa para PC.



Fonte: Kotaku
Leandro Eidi Umezu Batista escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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