Crônica

A arte de não gostar de um jogo popular

Não precisamos amar os mesmos games que todo mundo.


Sábado à tarde, estava a beber uma cerveja com outros dois membros do GameBlast. Conversa vai, conversa vem, o assunto acabou por mudar para o jogo do momento: Fallout 4 (Multi). Não podia opinar muito, visto que o joguei por poucas horas. Ainda assim, fui sincero e disse a primeira coisa que me veio à mente. “Não gosto dos jogos da Bethesda”. Olhares incrédulos dos meus colegas deixaram claro o pensamento de “Como pode alguém que diz gostar de RPG afirmar algo assim? Heresia? Sacrilégio? Devemos queimá-lo na fogueira em nome de Kratos, Bahamut e Nayru?”.


Esse texto não é uma crítica; não tentarei convencê-lo que Fallout 4 tem “x” defeitos e que, por essa razão, você deveria odiá-lo. Isso seria hipocrisia da minha parte, pois não acho que se trate de um game ruim. Pelo contrário, é um jogo de uma qualidade primorosa e que merece cada elogio que tem recebido. Porém, algo me impede de curtir The Elder Scrolls, Fallout ou Dishonored como todo mundo. Eu deveria amar Skyrim pela ambientação, jogabilidade, trilha sonora e tudo mais. No papel, faria todo sentido. Mas a ficha não cai, não tenho por esses jogos o mesmo “clique” dentro de mim que me faz jogar outros por horas e horas.

Não apreciar um game pode acontecer por várias razões. Às vezes, temos uma visão diferente a respeito de uma mecânica. Por exemplo: eu amo carros, corrida é um dos meus gêneros favoritos nos videogames e, durante anos, fui fã da série Need for Speed. Só que Need for Speed Underground (Multi), que muitos dizem ser um dos melhores de toda a série, eu considero um jogo mediano. Toda a coisa da personalização visual (que chamamos erroneamente por aqui de tuning) não me atrai. É um aspecto em que minha opinião diverge em relação a 99% dos demais fãs de NFS.

Para alguns, Dragon's Dogma é um dos piores jogos da Capcom. Para outros, uma das melhores novas franquias da empresa.
O contrário também é verdade. Alguns jogos, em nossa visão, são maltratados injustamente. Volta e meia leio reclamações sobre como a falta de um fast travel estragou Dragon’s Dogma (Multi), enquanto eu considero essa ausência uma das melhores ideias que tiveram no game design, pois acabou por manter a tensão de ter que atravessar o cenário e se preparar para aguentar a viagem.

E existem os casos inefáveis, que não podem ser explicados por palavras, como na minha relação com os jogos da Bethesda. Simplesmente acontece, sem que possamos fazer algo. Não há nada de errado nisso. Até porque todos nós passamos pela mesma situação em algum momento de nossas vidas. Acontece com aquele cara que adora jogos de ação, mas não entende o fascínio por God of War (Multi), com o jogador de RPG que não se interessa por Chrono Trigger (Multi) e com o fã de puzzle que nunca conseguiu jogar Tetris (Multi) por achá-lo entediante.

Todos amam odiar Superman 64. Mas, em algum lugar no universo, existe alguém que gosta desse jogo.
Não gostar da mesma coisa não significa que ela seja ruim. Claro, existem jogos que são realmente ruins, como E.T. para Atari ou Superman 64 (embora eu não duvide que alguém nesse mundo os admire). Sempre existe aquele game que é muito criticado, mas que nos atrai por um motivo que beira o mistério. É o famoso “está ruim, mas está bom”  que será tema de outra crônica em breve.

O problema é quando temos que confrontar alguém sobre esse gosto. Se não existe um motivo claro, como minha aversão a Skyrim, as pessoas dizem que sou louco. Quando há uma razão para não gostar, ela vira uma discussão acalorada, com a chance de esquentar a ponto de tornar-se uma briga  como a velha “guerra” entre fanboys de empresas diferentes.

Aprendi a reagir melhor a jogos fora do meu gosto quando trabalhei em uma locadora de games. Parte do meu trabalho era ajudar os clientes a escolher os jogos. Se alguém perguntava se o título "x" era bom, eu deveria responder levando em consideração suas preferências. Precisava afastar o ego para reconhecer as qualidades e defeitos de um produto, para indicá-lo (ou não). É o mais perto do que acredito que seja possível chegar da lendária isenção jornalística.

Uma viagem épica por desertos nucleares e cidades pós-apocalípticas. Teoricamente, não tem como não gostar.
Se eu tivesse que escrever uma avaliação do Fallout 4 agora, com certeza daria uma ótima nota. No entanto, duvido que fosse jogá-lo novamente depois das horas de jogatina necessárias para criar uma impressão. Talvez o enviasse para outro membro do GameBlast que iria aproveitá-lo melhor, caso estivesse com a versão física. Não é minha praia, assim com muitos jogos que adoro não vão aparecer nas listas de 1000 games mais amados do mundo.

Foram muitas reações indignadas, viradas de olho, jogadas de ombro, respostas irônicas do tipo “gosto não se discute” e argumentos de que eu não passei tempo o suficiente no jogo ou joguei da maneira errada. Porém, no fim das contas, todos nós gostamos ou não de coisas diferentes. E não tem nada de errado nisso.

Revisão: Robson Júnior
Capa: João Gilberto Melo

Nicolas Tavares é formado em Jornalismo pela FIAM-FAAM. Alguns dizem que ele é uma experiência da CIA que deu errado e está disfarçado como redator no Game Blast. Pode ser encontrado no Facebook.

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