Como é ser um indie no Brasil?

Desenvolvedores independentes fazem um raio X do mercado nacional de jogos.


A emoção foi grande ao receber o convite da gigante Microsoft para uma rápida participação na conferência que a empresa preparava para acontecer pouco antes do início da Brasil Game Show. Mesmo sendo responsável por uma pequena apresentação com duração máxima de 60 segundos, ter a chance de falar sobre seu trabalho para o público presente no evento era uma oportunidade única na vida. Isso foi o que passou pela cabeça de Persius Duaik, criador de Aritana e a Pena da Harpia, primeiro título brasileiro a integrar o ID@Xbox, projeto que apoia desenvolvedores independentes. O que ele não esperava era a experiência que viria logo após sua palestra: o próprio Phil Spencer surgiu no palco para lhe entregar um prêmio de agradecimento pela produção do indie que abriu as portas do programa para os jogos tupiniquins.
"Eu estava na plateia e fiquei emocionado, tanto que as fotos que tentei tirar ficaram todas tremidas. Ver meu irmão recebendo essa homenagem foi uma surpresa fantástica", revela Ricardo Duaik, diretor de produção no estúdio Duaik.
Apesar do momento ser especial para a equipe que criou Aritana, muitos outros desenvolvedores independentes também se sentiram presenteados ao ver o projeto da Duaik sendo reconhecido pelo principal diretor da divisão Xbox. "Posso falar que me emocionei junto com o Persius. Afinal, mesmo sendo uma conquista pessoal dele, acaba alavancando todo o mercado indie do Brasil", confessa Maurício Tadeu Alegretti, vice-presidente de games do estúdio SmyOwl, responsável por Neymar Jr. Quest e Super Button Soccer. A prova de que o sucesso de Aritana colaborou com outras produções nacionais é que depois dele, outros 32 jogos brasileiros também entraram para o ID@Xbox.
Aritana e a Pena da Harpia foi o primeiro indie brasileiro no ID@Xbox

Ainda que o prêmio conquistado seja motivo de comemoração, Ricardo Duaik não se ilude e comenta que a produção indie precisa continuar amadurecendo. "Atualmente, a criação de jogos no país é feita por paixão, porém, temos que começar a enxergá-la como negócio. É interessante ver que cada vez mais estúdios estão caminhando nesse sentido, formando equipes não só com programadores e artistas, mas também com profissionais de administração e marketing, áreas importantes para o sucesso dessas empresas", analisa. Se a organização está melhorando e a qualidade de nossos títulos vem em uma crescente, o que falta para o Brasil se tornar um grande centro produtor de games?

Not enough cash

Möira é um projeto nacional que mistura elementos de plataforma e RPG. Sendo desenvolvido pelo Onagro Studios, o jogo é baseado na estética dos primeiros anos de vida do Game Boy. Promissor, o game começou a se desenhar no ano passado e não demorou muito para que a equipe de desenvolvimento se arriscasse no Kickstarter. "Infelizmente, não obtivemos sucesso. Olhando para trás, penso que foi um ato impetuoso, mas que serviu como experiência de aprendizado para que entendêssemos a verdadeira dimensão do que é se dedicar a uma campanha de financiamento coletivo. Agora, estamos buscamos novas estratégias para nos lançarmos nesse processo novamente e devemos ter novidades muito em breve", conta Luiz Roveran, que integra a equipe de som de Möira.
Möira tem sua estética baseada nos primeiros anos de vida do Game Boy


Atualmente, as barreiras econômicas são os grandes obstáculos no cenário independente. Principalmente em equipes pequenas, é grande o esforço necessário para apresentar um material interessante ao público, a fim de estabelecer uma comunidade que acompanhe o trabalho. "É árduo esse processo de angariar uma base de fãs que futuramente possa vir a apoiar o desenvolvimento do jogo ", afirma Roveran. A constatação é reforçada por Ricardo Duaik, que concorda que a parte financeira é sim a grande dificuldade dos produtores indies no Brasil. "Até o estúdio começar a caminhar com as próprias pernas é algo que leva tempo, mas o legal é que todos se ajudam", diz.

Essa união entre os desenvolvedores independentes pode ser a chave para superar os desafios monetários. "Para o mercado crescer, de fato, é necessário que uma boa quantidade de produções nacionais conquiste destaque lá fora. Assim, acabam puxando todo o mercado brasileiro para cima", destaca Maurício Tadeu Alegretti. Um exemplo que demonstra a colaboração entre os indies foi a participação do estúdio Tree of Dreams, criadores de The Cannon Man Adventures, na edição deste ano da BGS.
"Somos de Manaus e foi a primeira vez que estivemos em um evento desse porte. Todos na Área Indie nos receberam muito bem. Não conhecíamos quase ninguém, mas acabamos fazendo muitos contatos. Temos que nos ajudar para levantar esse setor. Quando alguém consegue se destacar lá fora é um motivo de comemoração para todos", ressalta Claudio Sampaio, sócio e co-fundador da Tree of Dreams.
Área Indie da BGS 2015 esteve sempre lotada (foto: Luciano Oliveira)

A crise econômica no Brasil atrapalha?

Não é novidade para ninguém que estamos enfrentando um momento de turbulência econômica. A desvalorização do real e o aumento do dólar fazem os jogos e consoles importados ficarem ainda mais caros. Toda essa crise acaba afetando a produção de conteúdo indie, mas não de maneira negativa. "Como os jogos independentes são digitais, na sua maioria, podem ser distribuídos para qualquer lugar do mundo. Com o dólar alto, os estúdios acabam recebendo um pouco mais em real. Outro ponto é que o aumento nos valores cobrados pelos consoles e jogos fazem as pessoas procurarem outros meios para se divertir e os indies ganham espaço nesse cenário", analisa Alegretti.

Mesmo com as dificuldades econômicas brasileiras, o mercado nacional de games continua evoluindo. A previsão é de 15% de crescimento em 2015, sendo que no ano passado esse avanço foi de 20%. Esses números positivos acabam resultando em milhões de dólares entrando no país. "São valores que podem gerar muitos empregos. Quem quiser investir, essa é a hora", recomenda Sampaio. "O mercado de jogos é um dos poucos que continua crescendo. Se o Brasil estivesse melhor, os resultados seriam ainda mais interessantes. Entretanto, as perspectivas para o futuro são muito positivas", complementa Alegretti.
Alta do dólar pode ter influência positiva no mercado indie

O futuro promete ser dourado, pois o setor está em ascensão e seu estabelecimento deve acontecer de médio a longo prazo. "Algumas iniciativas são louváveis e têm sido de grande ajuda aos indies brasileiros nesse processo — tanto como meios de divulgação quanto como espaços de troca de conhecimento. Em São Paulo, temos o SPIN, que acontece mensalmente e promove o diálogo entre profissionais. Tivemos também o BIG Festival, no meio deste ano, que apresentou uma repercussão bacana", detalha Roveran. Há ainda quem sonhe mais longe. "Temos potencial para produzir jogos AAA no futuro. Podemos ser um polo de referência na produção de games", indica Sampaio.

Quero ser um indie

Após conhecer melhor um pouco do cenário e das dificuldades dos estúdios independentes no Brasil, muitos acabam se perguntando se vale a pena ou não se preparar para trabalhar nessa área. A resposta de quem já está lá é que essa é uma profissão trabalhosa e que exige muita dedicação. "As pessoas têm que compreender que criar jogos é um processo complicado e, por isso, devem ter muita paixão pelo que fazem. Não é uma caminhada fácil, os próprios Shigeru Miyamoto e Hideo Kojima tiveram que ralar muito para alcançarem o posto que têm atualmente", afirma Alegretti.

Os cursos que preparam os interessados para entrar nessa área estão se multiplicando por todo o país. Com isso, a qualidade dos profissionais também vem aumentando. Outra característica do desenvolvimento de games é que só se aprende fazendo. Por mais que a teoria seja importante, é necessário criar jogos. "Essa qualidade que vemos hoje tem muito reflexo de uma geração que já está produzindo seu terceiro ou quarto jogo", fala Alegretti. O auxílio de desenvolvedores de fora do país também está ajudando o brasileiro a se profissionalizar mais rápido.
Shigeru Miyamoto e Hideo Kojima também tiveram um caminho difícil
Os produtores de hoje ainda estão aprendendo, mas a qualidade vem aumentando. "Esse pessoal que está fazendo jogos muito bons vai dar aulas e ensinar as futuras gerações. Com isso, o mercado só tende a melhorar", ressalta Alegretti. Já para Sampaio, nossos programadores já atingiram o nível desejado. "Além deles, os demais envolvidos na criação de um jogo também estão em constante evolução. Desenvolver um game é uma forma de arte que reúne profissionais de várias áreas", complementa. Além de cursos já disponíveis em universidades de todo o país, a informação também está na internet para aqueles que querem aprender. "Basta determinação para quem quiser desenvolver seu primeiro jogo", recomenda Sampaio.

Com a constante qualificação da mão de obra, o mercado só precisa se organizar melhor para conquistar seu merecido espaço. "Também seria bem-vindo recebermos maiores incentivos para a produção nacional — pois estes ainda são poucos", comenta Roveran."A quantidade de profissionais disponíveis no Brasil ainda é pequena, principalmente de programadores e desenvolvedores. Temos mais demanda do que oferta", finaliza Alegretti.

Vale a pena se aventurar

Apesar de ser um trabalho sem nenhuma garantia de sucesso e que exige grande dedicação dos envolvidos, quem tem vontade de criar seu próprio jogo pode sim se arriscar nessa área. No Brasil, a atividade ainda não tem o reconhecimento que merece e os investimentos destinados para a produção de conteúdo nacional ainda estão bem longe do ideal. Essa situação só vai mudar com o empenho de todos, inclusive de nós, jogadores, que podemos incentivar esse mercado consumindo, cada vez mais, as produções brazucas.

Revisão: Jaime Ninice
Capa: Daniel Serezane
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.
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