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Análise: Os Cavaleiros do Zodíaco: Alma dos Soldados (Multi) é o melhor jogo da série, mas ainda explora a nostalgia

Com dubladores do anime e modo história que cobre os quatro principais arcos da obra de Masami Kurumada, Bandai Namco tenta compensar combate sem profundidade e gráficos sem muitas novidades.

Jogos de luta estão entre os meus títulos favoritos de todos os tempos, e apesar de Street Fighter, Mortal Kombat, Killer Instinct e The King of Fighters serem os maiores no gênero, a Namco e a Bandai eram as empresas que levavam ao Super Nintendo os títulos baseados em animes de sucesso, que encantava qualquer fã nos anos 90. Porém, um dos mais esperados por este que vos escreve e toda a torcida do Toguro, o baseado em Os Cavaleiros do Zodíaco, só chegou mesmo anos depois no PlayStation 2.


Hoje, com diversos jogos no currículo, a parceria entre Dimps e Bandai Namco aplica toda a experiência adquirida nos mais de dez anos de franquia em Os Cavaleiros do Zodíaco: Alma dos Soldados (Multi), um game que promete reunir tudo aquilo que conhecemos sobre a série principal para entregar o melhor jogo dos defensores de Atena até o momento. Será que os Cavaleiros foram capazes de vencer as forças do mal e cumprir a missão?.

Elevando o cosmo ao sétimo sentido

Após alguns anos do lançamento de Saint Seiya: The Hades (PS2), a empresa resolveu focar seus esforços em outras séries, como Naruto Ultimate Ninja Storm e Dragon Ball Z, retornando ao universo dos Cavaleiros em Bravos Soldados (PS3). O resultado foi um bom jogo com mecânicas semelhantes às lutas contra os chefes de A Batalha do Santuário (PS3) e seus antecessores.
   
O sistema de batalha de Alma dos Soldados continua no mesmo caminho. Um dos pontos mais importantes é a quantidade de esquivas, única maneira de quebrar combos, que está diretamente atrelada ao nível da barra de cosmo do personagem, responsável também por limitar o número de técnicas (como o Meteoro de Pegasus) e movimentos de explosão (fuga, aproximação ou ataque) executados. Isso requer que o jogador preste mais atenção em como gasta sua energia, pois corre o risco de não poder escapar de combos perigosos.

Enquanto isso, os Big Bang Attacks, como são chamados os ataques especiais no game, só podem ser desferidos mediante o preenchimento total de uma barra dedicada ao sétimo sentido, que ganha volume ao atacar o oponente, ao ser atingido, ou ainda ao mesmo tempo em que concentra o cosmo.
   
Ao ser preenchida, é possível então despertar o sétimo sentido, modo que não só garante acesso ao mais poderoso dos golpes dos guerreiros, mas também confere aos combatentes qualidades extras como a habilidade de quebrar a defesa mais rapidamente (especialmente útil contra aquele amigo retranqueiro). Muito fácil de pegar e jogar, o nível de diversão na jogatina é alto.
Esquivar também pode dar vantagem sobre o adversário.

Constelações de lutadores

Algo que promete fazer qualquer fã desse universo tremer (desculpe, não pude resistir) é a quantidade de lutadores presentes no jogo. Sim, já tivemos jogos baseados nas 12 casas, outro que passou pelo submundo de Hades e foi até os Campos Elíseos, e um último que juntou tudo isso. Mas esta é a primeira vez que temos o prazer de controlar Hilda de Polaris e seu grupo de Guerreiros Deuses de Asgard. Destaque para a diferença de estatura entre os personagens, principalmente Thor de Phecda, que é incrível.
   
Ao todo, Alma dos Soldados leva para a batalha um time de 48 personagens, número que pode pular para 72 caso levarmos em consideração as variações dos Cavaleiros de Atena como opções separadas. Podemos falar com orgulho que agora temos todos os principais antagonistas da história: Saga, Hilda, Poseidon, Hades e os cavaleiros de ouro com sobrepelizes. Entretanto, com a recente estreia da nova saga, Soul of Gold, as estrelas são mesmo as armaduras divinas dos Cavaleiros de Ouro.
   
Algo inteligente por parte da Dimps foi demonstrar o poder das novas armaduras por meio de cutscenes bem mais elaboradas, algo que fica claro ao utilizar os lutadores durante o extenso modo história. O impacto de golpes clássicos como o Tesouro do Céu de Shaka, ou ainda o Execução Aurora de Camus, agora Divinos, traz às lutas uma atmosfera de tirar o fôlego e, às vezes, faz-nos esquecer que não estamos assistindo ao anime.


Conteúdo para destravar e comprar em bacias

Igualmente impressionante é a quantidade absurda de conteúdo inserida no disco. Fora os quatro arcos principais da história, que podem levar de oito a dez horas para completar, retornam os modos de batalha vindos diretamente de seu irmão mais novo, entre eles a Guerra Galáctica e Sobrevivência. Cada luta ou competição pode requerer regras específicas, como ser derrubado pelo oponente no máximo três vezes.

A novidade desta vez é a Batalha de Ouro, modo que chega para representar as lutas da nova temporada da saga, ainda que nenhuma história seja realmente contada. Cada um dos 12 Cavaleiros de Ouro renascidos com trajes divinos devem lutar contra três oponentes, e caso todas elas sejam ranqueadas em nível S, um segundo mapa, que conta ainda com caixas que podem ser abertas ao sobrepujar o adversário designado,  será destravado.

Nele é possível também destravar para compra alguns dos 144 trajes, 435 títulos e 179 frases de ajuda disponíveis. Estas frases de ajuda, que substituem os orbes de Bravos Soldados, são essenciais não só para conquistar os 100%, mas também para dar aquele boost nas habilidades e superar os maiores desafios do modo.

Para acender o fogo de cada casa é preciso ter tochas, compradas com o dinheiro virtual ganho com as batalhas.

Nem tudo é um mar de Rosas Diabólicas Reais

Com tantas qualidades este deve ser o melhor jogo de anime de todos os tempos, não? Infelizmente, não é bem por aí. Apesar da “narutizada”, a equipe precisa enfrentar grandes vilões, talvez mais poderosos que Poseidon, Hilda e Hades juntos: o sistema de batalha continua simples demais, o desbalanceamento de personagens ainda está presente e falta uma evolução gráfica que explore melhor o poder das novas plataformas.

A facilidade para pegar e jogar torna o jogo mais acessível, porém, mostra-se uma verdadeira Excalibur de dois gumes: se isso por um lado permite que qualquer um desfira bons combos com pouco esforço, a falta de variedade e profundidade no combate entediará o jogador que planeja conquistar todos os colecionáveis, algo que é ruim. Não há uma boa diferença de combos entre personagens, e o único esforço necessário para passar por batalhas contra o computador é saber qual o alcance dos golpes de cada um, algo bem previsível.

As coisas mudam em partidas contra oponentes humanos, via multiplayer local ou online, mas não necessariamente para melhor: há um visível desequilíbrio de poder e técnica entre os cavaleiros. Não é nada estranho encontrar salas em que você luta sucessivamente contra Hades ou Sagas com armadura Divina. Para mudar sua opinião sobre o Shun ser fraco, basta escolher a versão sem armadura ou a com armadura de Virgem, pois a combinação das Correntes de Andrômeda e Tempestade Nebulosa é bem efetiva. Gosta de Shaka e Miro? Que pena, vai ser preciso escolher entre ganhar do amigo ou escolher seu personagem favorito.

No quesito gráfico é ainda mais difícil esconder que esta é só uma atualização de Bravos Soldados. Apesar de apresentar visual limpo, modelos ligeiramente melhorados e um brilho extraordinário nas armaduras como visto na versão do PlayStation 4, utilizada para análise, durante as novas cutscenes de história, que substituem imagens estáticas e panorâmicas do cenário vistas no passado (ponto positivo!), a animação é na maioria das vezes bastante dura.

É uma pena ver momentos emocionantes, como a batalha de Execução Aurora entre Camus e Hyoga na casa de Aquário, sequer serem representados. Também vale lembrar que, mesmo com uma boa trilha sonora, a falta das músicas originais do anime ajudam a quebrar o clima de imersão. Assistir à apresentação de Mime de Benetnasch sem seu Requiem, o qual não aparece nem ao menos durante o Big Bang Attack, é triste.

Ataque vozes nostálgicas divinas!

Não podia deixar de citar o trabalho de dublagem do jogo, que contou com as mãos de Hermes Baroli e Marcello del Grecco, dublador de Seiya e responsável pela tradução do mangá no Brasil, respectivamente. Quase todos os dubladores antigos retornam aos seus papéis, com algumas exceções, como Maralisi Tartarini, voz de Shina de Cobra, que faleceu em 2014.

Como já era esperado, esse é um dos principais motivos para comprar Alma dos Soldados. Tem quem já esteja acostumado a assistir a desenhos com legendas, mas para nós, crianças dos anos 90 altamente tolerantes ao nacional e com certa preguiça, não tem preço escutar vozes tão familiares durante uma batalha, o que de quebra nos alivia de qualquer leitura durante momentos mais tensos.

Mas como outras partes do jogo mostram, nem tudo são mil maravilhas. Há alguns momentos em que a dublagem dá seus tropeços e é exageradamente arrastada. No pacote de erros também estão algumas frases ditas com entonação que não corresponde com a emoção que a cena pede.
Faz falta ouvir o clássico “Venha Cobra”, que nunca mais será o mesmo.
No final da história, Alma dos Soldados é imperdível para os fãs e sem dúvidas o melhor jogo de Cavaleiros de todos os tempos. É divertido, fácil de pegar e jogar com os amigos, traz quase todos os personagens que você puder imaginar — ainda espero por Cavaleiros de Prata e Aço — e a quantidade de modos de batalhas e colecionáveis têm tudo para prender os fãs por horas. Porém, se levarmos em consideração as melhorias feitas, e compararmos a outros títulos da empresa, principalmente à linha Naruto Ultimate Storm, é difícil não imaginar que poderia ser ainda melhor.

Ou seja, enquanto não houver uma boa evolução no gameplay, trazendo mais competitividade às batalhas, assim como uma boa melhoria na parte gráfica, que aproveite a potência dos consoles para trazer arenas mais bem desenvolvidas, adicione mais efeitos aos golpes e possibilite modelos mais bem-acabados, a série continuará sendo um fast food - ainda que gostoso - dos jogos de luta, que atrai público mais pela nostalgia do que por ser um excepcional título.

Prós

  • Dublagem em português atira uma flecha bem na nostalgia;
  • Traz personagens de todas as sagas do anime;
  • História é finalmente contada por meio de cutscenes;
  • Muitos modos de jogo e colecionáveis;
  • Conteúdo desbloqueado com o suor de nossas próprias mãos;
  • Big Bang Attacks dos Cavaleiros de Ouro Divinos são espetaculares e mostram a diferença entre armaduras.

Contras

  • Jogabilidade simples demais, sem profundidade;
  • Desequilíbrio claro de habilidades entre os Cavaleiros;
  • Gráfico não faz jus ao poder do hardware.
Os Cavaleiros do Zodíaco: Alma dos Soldados — PS3, PS4, PC — Nota: 7

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Nívia Costa
Thiago Caires escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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