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Análise: UBERMOSH (PC) é uma ode ao hedonismo e visceralidade

Controles precisos, jogabilidade frenética e muitos tiros marcam o game do brasileiro Walter Machado.

Comparações são ferramentas úteis, mas trazem uma série de problemas — principalmente quando elas são usadas para tentar se descrever uma obra cultural ou artística. Jogos, em especial, são uma das grandes vítimas de comparações. Frases como “esse game parece uma mistura de X e Y” são comuns em conversas entre os fãs da indústria.


Tais comparações podem até descrever um título superficialmente, dando uma boa ideia de como são sua estética, narrativa e mecânicas. Entretanto, a experiência que o jogo passa é completamente ignorada. É até possível comparar experiências, mas os argumentos podem ficar um pouco… anti-intuitivos, digamos assim.

Esse foi o principal problema que encontrei com UBERMOSH (PC). Ao tentar descrevê-lo ao um amigo, a única coisa que consegui pensar foi dizer que ele era “uma mistura de Super Hexagon (PC) e Doom (Multi)”.

Qualquer pessoa que jogou esses games pode confirmar que nenhum deles é diretamente comparável em aspecto algum, nem mesmo superficialmente. Enquanto UBERMOSH trata-se de um shooter top-down frenético do estilo arcade, Super Hexagon pertence ao nicho ocupado por games do tipo twitch gameplay e Doom é o FPS quintessencial. Mas meu objetivo não era comparar os elementos superficiais de cada obra, e sim as sensações que elas passam — essas, sim, muito mais similares do que pode parecer.

Os 90 segundos mais longos de sua vida

Assim como Super Hexagon passava uma sensação visceral em seus pequenos 60 segundos de duração, UBERMOSH faz com que o jogador sinta toda uma jornada de progressão, superação, desenvolvimento a agonia em apenas 90 segundos.

São 90 segundos em que o único objetivo é “não morrer”. A dificuldade elevada garante que tal objetivo não será conquistado na primeira (ou segunda, ou terceira…) tentativa. O espaço é limitado, seus artifícios diminutos e o perigo vem de todos os lados.

A sensação é de que o tempo foi dilatado. São apenas 90, mas parecem durar uma eternidade. Para se completar o game, é necessário passar por vários desses curtos ciclos de eternidade — e descobrir, ao final de sua jornada, que tudo pode ficar ainda mais difícil. Já se acostumou com o uso de armas? Tente vencer usando só a espada, cortando as balas inimigas. Ainda está fácil? Teste o modo HARDBOILED (assim, com tudo em capital, mesmo) e faça os 90 segundos parecerem ainda mais longos.

A visceralidade de UBERMOSH, entretanto, transpassa outros sentimentos além da dilatação temporal. Ele também é capaz de proporcionar um frenesi gigantesco — e é aqui que ele se compara com Doom.

O game evoca o prazer primordial que a violência é capaz de trazer. Literalmente, ele lhe lembra como matar (digitalmente) é divertido. Algo explícito até mesmo na tela inicial do jogo, que apresenta sua personagem principal como uma mulher com uma expressão que grita “eu gosto de atirar em coisas”. É como se ela ansiasse para entrar na arena, sem medo, esperando o perigo. Ou, melhor ainda, setindo-se o perigo em pessoa. Em combate, a protagonista não passa de um amontoado de pixels. Mas aquela imagem da tela de início continua gravada na mete o jogador, servindo como um reforço visual que permeia todo o game.

Os inimigos também são meros amontoados de pixels. Alguns sequer possuem forma humana. Assim como os demônios e zumbis de Doom, eles estão lá com o único objetivo de receber bala. As criaturas não dão tempo para o jogador refletir sobre suas ações violentas e, em certa medida, as justificam, absolvendo o jogador de qualquer sentimento de culpa. Há apenas o desejo de destruí-las antes que elas destruam você.

Hedonismo sem culpa

Dilatação do tempo. Frenesi. Excitação. Todas essas sensações se misturam, resultando numa obra extremamente divertida.

Não é um resultado final perfeito, nem mudará a vida de ninguém. Enquanto alguns games tentam elevar a indústria ao status de “arte”, UBERMOSH é quase que puramente lúdico. Seu foco é o hedonismo imediatista. Não há nenhuma grande crítica ou mensagem por trás da ação — mesmo existindo a emergente ideia de evolução pessoal em tempo limitado.

Seus elementos estéticos também não fogem dessa proposta. O visual é funcional e se encaixa com a visceralidade sempre presente. A música é animadora, mas não é nada que eu pessoalmente colocaria em meu smartphone para escutar no decorrer do dia. É tudo muito divertido e prazeroso enquanto dura, mas acaba junto com os 90 segundos.

Que fique claro: não há problema algum nisso. Muito pelo contrário, UBERMOSH cumpre com louvor sua proposta hedonista e, com isso, torna-se uma experiência viciante fascinante. É o típico game que você deixa no seu computador e joga só de vez em quando para passar o tempo e, quando percebe, já passou duas ou três horas jogando sem parar, obstinado em conseguir o máximo de pontos possíveis.

Prós

  • Visceral e frenético;
  • Altíssima rejogabilidade;
  • Exagerado e hedonista;
  • Desafiador.

Contras

  • Pode não agradar quem busca uma experiência profunda e cheia de narrativa.

UBERMOSH — PC — 8.0
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o GameBlast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.

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