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Análise: Life is Strange Episódio 5 (Multi) - O começo do fim

Depois de tantos desafios e problemas, chega ao fim a história de um dos jogos mais inovadores e interessantes do ano.

Life is Strange (Multi) é uma das grandes surpresas do ano. Chegando de mansinho, foi conquistando os jogadores ao redor do mundo por conta da sua história complexa e surpreendente, que conta com uma bela produção sonora e uma grande sensação de imersão, em um ambiente cheio de situações que podem ocorrer na vida de qualquer um.


É curioso o papel que a magia da personagem principal, Max, consegue desenvolver conforme os episódios progridem: cada vez mais se torna plano de fundo para o aprofundamento de sentimentos e conexões com outras pessoas. Este não é um jogo que agrada a todos, por conta de seus diálogos extensos e ritmo demorado, mas deveria fazer parte da vida de toda uma população.
O que antes parecia ser apenas o quarto de Max se tornou em um verdadeiro parque de diversões.

Em apenas quatro episódios fomos colocados em situações difíceis, envolvendo drogas, sexo, suicídio e abuso sexual. Mas, ao mesmo tempo, estabelecemos uma ligação gigantesca com os personagens, que nos faziam ficar dias e dias desenvolvendo teorias em torno do seu futuro. Foi muito difícil esperar pelo quinto e último episódio, que trouxe não somente um desfecho para a linha narrativa, mas para a ansiedade de muitos fãs.
Este texto não contém spoilers dos episódios anteriores e pode ser aproveitado por todos. Tenha em mente, porém, de que foi feito para quem já os terminou, por falar de sensações e expectativas ainda inéditas.

Um passado presente

Depois do final do episódio anterior, muitos passaram a se perguntar sobre o futuro da série. Mantendo a consistência de deixar tudo cada vez mais sombrio, o clima de felicidade e descobrimento do início foi substituído por medos e tentativa de sobrevivência. Ver Max presa em seu próprio tempo chega a ser tão aflitivo quanto voltar para a aula do começo do jogo — o que ocorre com uma frequência assustadora.
A maneira com que o jogo trata do tema "violência e abuso sexual" é tão intensa que muita gente pode se sentir mal após o jogo.

É muito legal que eu, homem, possa ter um pouco de noção do medo que uma mulher sente de ser abusada sexualmente. Vivendo em uma sociedade na qual posso andar na rua sem medo, é difícil entender a dificuldade de conviver sem ter medo do homem desconhecido ao lado. Life is Strange conseguiu tocar em feridas enormes, que precisam chegar à massa e ensinar um pouco ao mundo o quão necessário é que mudemos a nossa maneira de pensar.

Um dos momentos mais interessantes deste início trata, justamente, da violência contra a mulher. Percebi o quão fácil esquecemos do quanto isso ocorre quando perdoei alguém que bateu em Chloe somente por ter feito outra boa ação (e, de maneira indescritível, senti um enorme peso na consciência por ter feito isso depois). Se há algo que esse jogo vai deixar saudades é justamente a facilidade de enxergar o resultado de nossas ações. E eis a maior das inovações: as pequenas escolhas dos primeiros episódios exercem papel fundamental nas falas e decisões finais, praticamente criando uma experiência única para cada jogador.
Os poderes de Max começam a ter muitos efeitos colaterais. Já fica óbvio que não dá para ter um final feliz.

Largue o controle e pegue a pipoca

Se nos outros episódios os maiores problemas envolviam a falta de sincronia labial e alguns poucos diálogos que soavam “falsos”, por aqui a situação se inverte. Percebendo o sucesso de sua trama e a paixão das comunidades de fãs que foram criadas em todo o planeta, a Dotnod resolveu focar todo o seu esforço em criar um desfecho com ênfase na história, deixando de lado a qualidade da jogabilidade.

Praticamente todo o episódio cinco é feito com escolhas em diálogos, com pequenos momentos de movimentos e interação com cenários. Os enigmas e quebra-cabeças que usavam e abusavam do controle do tempo simplesmente desapareceram, surgindo em pequenos momentos que não faziam jus ao que já havíamos experimentado.
Em um momento que nos remete à "P.T." (a demonstração jogável de Silent Hills, do PlayStation 4), o jogo se perde em cenas nada divertidas, confusas e repetitivas: tudo para trazer um roteiro digno de último episódio.

Em um dos poucos momentos que o diálogo é deixado de lado, o jogo se perde ainda mais. Apesar de contribuir para a narrativa, os delírios de Max são controlados e vividos através dos controles, que fazem uso de elementos famosos para a sua completude. Em uma das cenas, somos obrigados a fazer com que Max fuja de diversos personagens em um espaço labiríntico, fazendo-nos voltar no tempo todas as vezes que somos encontrados. Por conta da facilidade do desafio e da repetição de sons e movimentos, o momento deixa de ser divertido e passa a ser entediante e um pouco frustrante.

Em compensação aos problemas, é fácil entender o pensamento da desenvolvedora. Este episódio não será jogado por alguém que não acompanhou a série, e quem o fez não foi pela jogabilidade. Finalmente, depois de tantos erros, os diálogos e reações se tornaram algo totalmente crível e fácil de se relacionar, transformando o que poderia ser um desfecho qualquer em um final emocionante e mais profundo do que muitos filmes encontrados no mercado atual.
Depois de tantas realidades problemáticas, é bom encontrar alguma que traga um pouco de paz.

Mais do que um jogo

Life is Strange termina de um jeito fantástico. Sem deixar espaços para uma continuação direta, a trama é completamente encerrada através das escolhas do próprio jogador, que pode ver diferentes finais com bases nas decisões do jogo inteiro. São os pequenos detalhes que fazem desta uma das melhores aventuras de 2015, e que nos trouxeram a oportunidade de conhecer uma desenvolvedora que merece todas as atenções.

Ainda mais legal é poder acompanhar o crescimento e empoderamento de duas personagens femininas, que mostram uma visão nada estereotipada de seus pensamentos e são tratadas com o respeito e carinho que todas as mulheres nos jogos deveriam ter — afinal, se estamos cansados de ver somente o corpo feminino nas televisões, o mesmo devemos sentir com os videogames. Independentemente da sexualidade e das escolhas que levaram o jogador ao fim, Max e Chloe são o que são, com seus defeitos e qualidades: humanas.
O jogo deixa muitos mistérios não resolvidos, apesar de completar a sua trama. Isso abre espaço para discussões, mais teorias e, quem sabe, uma próxima temporada com outros personagens e situações semelhantes. 

Ficaremos com saudades. Este é um jogo que criava uma energia e atmosfera tão contagiantes que nos fazia parar de jogar para apenas apreciar a música e o cenário enquanto os personagens sentavam em suas camas. É a maior representação de que não precisamos de pessoas reais para nos emocionar: basta que haja emoção, criatividade e preocupação com os detalhes. Obrigado por esta experiência e esperamos mais no ano que vem (mas com outro jogo, para que Life is Strange continue terminado com chave de ouro).

Prós

  • Desfecho criativo e sem enrolações;
  • Personagens que cativam até o fim;
  • Ações que geram reações desde o primeiro episódio;
  • Trilha sonora que merece virar CD;
  • Temas pesados e tabus são colocados em questionamento, fazendo-nos rever conceitos.

Contras

  • A jogabilidade ficou totalmente em segundo plano;
  • A falta de sincronia labial nunca deixou de incomodar;
  • Momentos repetitivos e frustrantes;
  • Mesmo tendo um ótimo desfecho, o jogo vai deixar muitas saudades.
Life is Strange — PC/PS3/PS4/X360/XBO — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Daniel Serezane

Leandro Rizzardi se aventura nas terras de redação de games, livros e roteiros de fantasia. Extremamente apaixonado por universos imaginários, descobriu nos videogames o lugar perfeito para viver — o que resultou no crescimento de sua barba. Pode ser encontrado em seu Facebook, quando não estiver jogando.

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