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Análise: Em Kingdom (PC), governe com quatro teclas e um cavalo

Um reino para chamar de seu por apenas algumas moedas de ouro e suaves parcelas de gestão de recursos a perder de vista.


Kingdom (PC) é um RTS compacto, um jogo com características dos jogos de estratégia em tempo real como a das famosas séries Age of Empires e Stronghold, mas um detalhe: o jogo é completamente em 2D, em progressão lateral e com comandos bem simples: W, A, S e D, e deu, só essas quatro teclas.


Mas não se engane, as mecânicas do jogo são bem variadas. Os mapas são gerados aleatoriamente e vão te dar liberdade para fazer melhorias nas várias construções do jogo ao invés de focar na contratação de súditos, se assim o jogador preferir. Ou quem sabe explorar aquela floresta sinistra e expandir seu império. Você também pode se esconder debaixo da saia dos arqueiros na hora do perigo e só sair de dia, quando os monstros dormem.


A engrenagem que faz o mundo girar

Aqui o dinheiro é sua diplomacia, seu escudo. Para fazer qualquer upgrade nos seus domínios, pressione a tecla “S” (ou para baixo) até a barra de moedas estar completa. O primeiro upgrade, acender a fogueira para dar início ao seu pequeno vilarejo, custa uma moeda. Depois eles vão encarecendo dependendo da sua complexidade, mas você só ganha as primeiras dicas, o resto é tudo por sua conta, tornando a exploração algo extremamente necessário e recompensador.

Viajantes de acampamentos montados pela estrada podem se mudar para o seu pequeno império por um custo pequeno no começo, mas mercadores e outros figurões vão exigir que você preste atenção nas aulas de economia doméstica.
A vaga é de quem pegar a moeda primeiro

Apesar disso, a administração de recursos é limitada, resume-se à preservação da sua cidade contra as ondas de ataques inimigos, que acontecem quase todo o dia, e à gestão financeira, pois sem dinheiro você não faz nada. Você também deve “racionar” o fôlego do seu cavalo para as horas em que precisa fugir dos invasores para trás dos muros e deixar as torres de vigia e cercas fazerem o trabalho. 

Acredite, quanto mais o seu reino aumenta, mais importante se torna planejar o caminho do seu parceiro para que vocês não fiquem andando em círculos, perdendo tempo e fôlego. Isso porque ele acaba depois de alguns segundos de corrida e te deixa mais lento depois. Às vezes você não consegue salvar sua coroa por pouco e isso é game over, perda total do progresso.
"Se a colheita for boa, quem sabe eu não troco esse cavalo por uma pick-up"

Não saia só com o cartão de crédito

Toda noite, das criptas mais próximas, jorram monstros travessos que vão depenando o seu reino. Eles roubam arcos para te deixar sem defesa, martelos dos construtores para atrasar as obras e o pior, as moedas dos habitantes, o que faz eles deixarem a cidade (porque o dinheiro é o único contrato que você estabelece com eles). Talvez fosse bom tentar uns pontos de carisma da próxima vez.

Contudo, o que os monstros querem mesmo é a sua coroa. Quando você fica sem moedas, algo comum se você não gerir bem o dinheiro, eles ficam aptos a roubá-la. Encontrar uma cripta na florestas também pode despertar os monstros, então convém ter fôlego e moedas.




As moedas são escassas mas você pode desbravar os arredores em busca de baús, ou investir nos arqueiros para matar coelhos, que aqui dão moedas ao invés de carne. Só que eles logo acabam — o que não faz sentido levando em conta a capacidade reprodutiva desses roedores. Cervos dão mais retorno e são bem mais comuns, mas como são bem rápidos, você vai precisar dar uma mãozinha para seus soldados: quando você o ultrapassa, ele muda de direção, então é preciso manipular a sua trajetória para que ele vá direto para as pontas das flechas impiedosas dos seus súditos. Aliás, aqui tudo o mais vira moeda, trigo, árvores, tudo.

Pintura a pixel

Com uma direção de arte de cair o queixo, Kingdom abusa de muita variedade de tonalidades com cenários majestosos, construídos tão belamente que cada frame parece uma pintura a óleo. O segredo para não confundir os personagens com o fundo pixelado foi colocar várias camadas de floresta com um funcionamento separado do jogo, dando uma ideia de recorte do mundo, de vastidão, lembrando muito o estilo de jogos como FEZ (Multi). Além disso, os sprites aqui são minimalistas, com o menor número de elementos possível (nem olhos eles têm).



É muito interessante notar que eles também não esqueceram dos mínimos detalhes: as estações mudam visivelmente, o ciclo dia e noite acontece gradualmente e a iluminação é muito bem construída. Capelas de madeira ficam no meio da mata fechada para se destacar do resto do cenário e monumentos cheios de musgo aparecem em clareiras com muito sol banhando as pedras. Um espetáculo visual que só perde para o efeito das gotas de chuva no riacho que corre ao lado reino, que quando o sol clareia, vira uma cerração superrealista, apesar do estilo gráfico.



Botar os fones de ouvido é tirar férias do mundo

Além disso, o estúdio Raw Fury está de parabéns mesmo pelos efeitos sonoros. Lembro que a minha namorada, que não sabia que eu estava com o Kingdom aberto, me perguntou se estava chovendo de verdade pelo barulho do jogo.

No meio de toda a confusão de buzinas, sirenes e gritaria, é normal se sentir completamente isolado, surpreso pelo farfalhar das árvores copadas que te fazem esquecer do verão e do calor. E tudo isso é causado por gráficos 2D, mas com um realismo muito preciso e surpreendente.

Jogar Kingdom é certamente um escapismo, e aos poucos os problemas financeiros do seu monarca vão ser problemas seus também, a floresta vai ser muito mais imersiva que o estilo permite, você vai ter compaixão quando seu cavalo se cansar e, quando encontrar criptas, seu coração vai ficar na boca.

Prós

  • Simples jogar, difícil largar;
  • Colírio para os olhos, espere topar com esse jogo numa galeria de arte;
  • Desafio de viver um dia de cada vez;
  • Os mapas gerados aleatoriamente estimulam o fator replay;
  • Descobertas das mecânicas são emocionantes e veladas, também estimulando o replay.

Contras

  • O mapa vai crescendo dia a dia, então pode haver algum tédio até o resto aparecer;
  • O rei podia ter outras formas de defesa além de um saco de moedas.
Kingdom — PC — Nota: 8.0


Revisão: Vitor Tibério
Capa: João Gilberto Melo
Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no GameBlast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

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