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Análise: Armikrog (PC) é um belo jogo com potencial desperdiçado

Problemas técnicos e de game design atrapalham o esforço empregado nos gráficos.


Armikrog (PC) é um dos casos de sucesso do Kickstarter. Doug TenNapel, criador de Earthworm Jim (Multi) e do clássico cult The Neverhood (PC), chamou a atenção de pessoas suficientes para seu novo projeto e arrecadou mais de 974 mil dólares, alcançando até mesmo metas para lançar o jogo para PS4 e Wii U em um futuro próximo. Com isso, o jogo point and click conseguiu ser concluído.


O que mais chama a atenção em Armikrog são os seus gráficos. Aqui você não encontrará imagens 3D ultraelaboradas com milhões de polígonos, e sim imagens criadas com escultura tradicional, envolvendo argila, bonecos e animações em stop-motion. Isso dá um charme inegável ao jogo e uma sensação de novidade mesmo utilizando um método tão antigo.
Um dos artistas prepara a pose para mais um frame da animação inicial.

Um início exemplar

Ao iniciar o jogo somos presenteados com uma uma animação cativante e uma música divertida. Conhecemos o astronauta Tommynaut e seu companheiro Beak-Beak, uma criatura que se parece com um cachorro falante. Eles viajam até o planeta Spiro 5, esperando conseguir a substância P-tonium para salvar seu planeta natal. Ao sofrerem um acidente e realizarem um pouso de emergência em Spiro 5, nossos heróis se refugiam em uma construção abandonada e precisam descobrir como voltar para casa.

O começo do jogo não é muito diferente de outros jogos do mesmo estilo. Ao clicar no cenário, os personagens caminham até o local indicado e, ao clicar em itens interativos, algo diferente acontece, dependendo do item. Também é possível trocar o controle entre Tommynaut e Beak-Beak, para resolução de alguns puzzles. Infelizmente não demora muito para percebermos os problemas do jogo, que vão desde problemas técnicos até problemas de game design.
As animações extremamente caprichadas me fizeram sentir criança de novo.

Clicando no vazio

Um dos problemas mais graves é que o cursor não dá qualquer tipo de feedback sobre o item apontado. Em jogos do tipo point and click, sempre que o cursor está em cima de algum item interativo do cenário, ele muda de forma para indicar que algo acontecerá caso o jogador clique com o mouse. Em Armikrog, o cursor simplesmente não muda.

Isso não seria tão ruim se não fossem outros problemas. Por exemplo, nem sempre uma área clicável fica alinhada com o objeto, forçando o jogador a tentar clicar em locais próximos — às vezes mais para os lados, às vezes mais para cima — até ativar o objeto. Para complicar ainda mais, caso um objeto não possa ser utilizado nesse exato instante, os personagens não fazem qualquer tipo de comentário, como "não posso usar isso agora". Eles ficam parados e calados. Assim, ao tentar clicar em um objeto e não obter alguma resposta do jogo, ficamos sem saber se realmente não podemos interagir com o objeto naquele instante, ou se não estamos clicando no lugar certo.

Um exemplo: em alguns lugares do jogo há botões vermelhos perfeitamente alcançáveis por Tommynaut, mas ao tentarmos clicar estes botões com o astronauta, nada acontece. Na primeira vez que encontrei um botão deste tipo, pensei que simplesmente não poderia interagir com ele. Quando bateu o desespero de não conseguir avançar no jogo, descobri — com a ajuda de uma pesquisa na internet — que eu teria que clicar no Beak-Beak para controlá-lo, e só então conseguir apertar o botão que, como disse antes, estava ao alcance de Tommynaut. Se Beak-Beak dissesse algo como "deixa isso comigo" ou Tommynaut perguntasse "você pode apertar este botão?", seria muito menos frustrante.
Algum motivo pelo qual Tommynaut não alcançaria aquele botão do lado da porta?

Desperdício de talentos

Aliás, o silêncio dos personagens é outro grande problema. Na animação inicial, os protagonistas têm interações divertidas e mostram personalidades carismáticas. Porém, logo que o jogo começa pra valer, eles dificilmente falam algo. Com exceção das poucas cutscenes e das raras vezes que falam durante o jogo, todo o potencial de interações entre eles é desperdiçado. Mais triste ainda é perceber que os dubladores fazem um ótimo trabalho, e que muito mais poderia ser feito com o talento deles. As músicas também são boas, mas elas são muito raras e a maior parte do jogo é em silêncio, a não ser pelos ocasionais efeitos sonoros.

Grande parte do jogo se resume a resolução de puzzles. Infelizmente, a maioria deles não é muito inspirada, focando em colocar objetos e símbolos na ordem certa, e com as pouquíssimas dicas, tornam-se mais parecidos com exercícios de tentativa e erro. Além disso, alguns deles se repetem até três vezes no decorrer do jogo, o que faz com que alguns pareçam maneiras forçadas de tentar aumentar o tempo de jogatina, que é bem curto. Eu mesmo terminei o game em cerca de quatro horas.
Espero que goste desse puzzle, você terá que resolvê-lo mais duas vezes.

Problemas técnicos

Logo no lançamento, vários jogadores encontraram bugs graves, até mesmo com os saves. Com a versão 1.02 eu não encontrei nenhum problema sério, o que mostra que os desenvolvedores estão trabalhando rápido para consertar o jogo, que foi lançado em 30 de setembro. Apesar disso, eu encontrei alguns bugs relacionados ao áudio, como legendas atrasadas, sons que não tocavam, e duas vezes o jogo deu uma travada durante as animações e o som ficou adiantado.

Um sinal de que os desenvolvedores estão escutando as reclamações é que até a versão 1.01, que foi a que comecei o jogo, o jogo utilizava o próprio cursor do Windows. Na versão 1.02, um cursor próprio do jogo foi criado, apesar de ainda não consertar o problema que mencionei no começo da análise, sobre ele não mudar de acordo com o contexto.

Outros aspectos demonstram falta de capricho. Notando apenas a presença de uma opção "Start New Game" e a falta de uma "Load Game", o jogador pode pensar que seu progresso anterior foi perdido. É necessário entrar no menu de opções para encontrar a lista de jogos salvos. Outro exemplo é que ao realizar um save manual, não é mostrada nenhuma confirmação. Portanto, ao tentar salvar com um nome já existente, não temos a certeza de que o progresso foi realmente armazenado. Detalhes assim dão uma sensação de certo amadorismo.
Por causa de uma travadinha, o som desta frase foi falada dois segundos antes.

Jogo falho, mas que pode melhorar

Apesar dos diversos problemas apontados em Armikrog, ele não é um desastre completo. As animações e alguns dos puzzles fazem o jogo valer a pena, e a velocidade com que os desenvolvedores estão lançando correções — foram dois patches em uma semana, não só corrigindo bugs mas também melhorando a experiência de jogo — mostram que ele deve melhorar ainda mais.

Prós
  • Animações e gráficos caprichados e carismáticos;
  • Músicas e vozes;
  • Humor agradável.

Contras
  • Existência de bugs;
  • Puzzles sem inspiração e alguns repetidos;
  • Falta de interação entre protagonistas;
  • Falta de guias visuais;
  • Pode ser finalizado em poucas horas;
  • Pouco desenvolvimento do enredo durante o jogo;
  • Alguns aspectos demonstram certo amadorismo.

Armikrog — PC — Nota: 6.5

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Felipe Araujo

Leandro Eidi Umezu Batista escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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