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Análise: Stasis (PC) traz terror sci-fi de qualidade ao estilo Dead Space

Jogo indie ressucita estilo point-and-click em aventura especial assustadora, instigante e imperdível.

O que daria a mistura de Monkey Island, Dead Space e Diablo III? A resposta é Stasis, o game de terror desenvolvido por dois irmãos: Chris e Nic Bischoff. O projeto foi financiado via Kickstarter e arrecadou US$132,523 (ou R$ 477 mil, em conversão direta), um valor considerado alto se levarmos em conta a reduzidíssima equipe de produção.

Stasis
levou aproximados cinco anos desde a concepção da ideia, arrecadação de fundos, desenvolvimento e lançamento. Apesar de contar com atores que emprestaram suas vozes e de suporte de outras pessoas, o game foi todo conduzido pelos Bischoff, desde o roteiro até a pós-produção. O que poderia ser apenas “o primeiro jogo de um desenvolvedor iniciante” é, na verdade, uma memorável aventura de ficção científica com altas doses de terror espacial.

A volta do (gênero) morto-vivo

Popular nos anos 80 e 90, o gênero point-and-click foi morrendo ao longo dos anos. A mecânica simples de clicar com o mouse em locais específicos foi sendo substituída pelos milhares de comandos exigidos pela ação frenética dos games mais modernos. No entanto, o gênero ainda possui vários fãs saudosistas, como este que vos escreve.
"Quando jogar Stasis, você vai precisar de caneta e caderno para alguns quebra-cabeças"
Stasis usa e abusa das mecânicas já consagradas: ritmo mais lento, câmera fixa, puzzles engenhosos e um desenrolar que faz você querer saber o que vai acontecer a seguir. O humor, uma das marcas do gênero, foi substituído pelo terror clautrofóbico de se estar trancafiado sozinho em uma nave no meio do espaço. Ah, quem dera se você estivesse realmente sozinho…

Um sobrevivente lutando para sobreviver

Em inglês, a palavra Stasis (estase, em tradução literal) tem vários significados. No game, ela pode adquirir dois sentidos: um pelo lado da biologia, que representa um estado de pouca ou nenhuma evolução de uma espécie — uma clara referência a nós, humanos, que evoluímos tanto a ponto de nos destruirmos; ou pelo lado da ficção, que implica numa pausa artificial de todos os processos físicos e químicos do organismo necessários à existência da vida — é o caso do nosso protagonista, que começa a jornada despertando de um sono profundo.

John Maracheck acorda de um longo período de incubação na Groomlake, uma nave espacial aparentemente abandonada. Esta nave orbita em torno do planeta Netuno, conhecido como o gigante gasoso. Por conta da distância, ela obviamente está fora da influência jurisdicional da Terra, valendo-se dessa premissa para realizar diversas experiências eticamente duvidosas.
Tem algo de muito estranho nessa espaçonave...
A Groomlake pertence à multinacional Cayne Corporation, uma empresa que tem desempenhado um papel fundamental no avanço tecnológico, médico e científico humano durante décadas. É uma espécie de Umbrella Corporation (de Resident Evil) espacial, cujo objetivo é realizar pesquisas ilícitas e promover experimentos com homens, mulheres e crianças.

Muito machucado, John sai em busca de sua esposa e filha desaparecidas para tentar dar o fora dali o mais rápido possível, afinal o tempo está correndo contra ele. Isso porque a nave está fadada a um belo mergulho nas nuvens azuis-tóxicas de metano de Netuno.

Investigação e muitos sustos

Se o enredo não é tão original assim, o desenrolar da trama compensa tudo. Mesmo com poucas falas, é difícil não se identificar com a situação de John, principalmente quando começamos a descobrir os primeiros segredos. A partir daí, o senso de detetive aflora e o jogador quer saber o que, de fato, aconteceu naquela estranha nave, porque John sobreviveu, onde está a sua família e como diabos ele vai fugir de uma estação que está a milhares de anos-luz da Terra.

Para saber cada detalhe dos acontecimentos, o jogador vai se deparar com vários PDAs espalhados, uma espécie de diário eletrônico em que os trabalhadores da Groomlake relatavam seus sentimentos e suas expectativas. E para avançar na historia é importante juntar essas informações, colocar a cuca para funcionar e tentar solucionar puzzle atrás de puzzle.
Prepare seu inglês, pois as leituras são fundamentais em Stasis.
Não espere sair fuzilando criaturas com uma metralhadora ou correr de zumbis por aí. John não tem armas e nem é um lutador ágil ou superpoderoso. O estilo aqui é outro: aja corretamente e você prosseguirá ou erre e tenha uma morte dolorosa. Provavelmente, o jogador vai morrer várias vezes até descobrir a coisa certa a se fazer — em diversas ocasiões vai tomar um baita susto por isso.

Parte técnica impecável

Stasis é um título tão bem acabado que fica difícil imaginar que não tenha uma grande equipe de criação. Os gráficos são em 2D isométrico, técnica utilizada para criar uma falsa de sensação em três dimensões. São bastante defasados e nos remetem a meados da década de 90, mas não comprometem de maneira alguma a experiência proposta. Apesar disso, os cenários são bem construídos, variados e possuem um estilo parecido com o do filme Alien: O Oitavo Passageiro.

O visual é datado, mas os cenários são bem detalhados.
A trilha sonora é um show a parte. Jogar à noite, em um quarto escuro e com os fones de ouvido no volume máximo é um desafio para os amantes de um bom suspense. As músicas são bem produzidas e dão o tom do momento. Quando aliadas aos efeitos sonoros, complementam a experiência e criam uma ambientação perfeita. Por vezes, você irá se deparar com gritos de horror, grunhidos e sons diversos que o farão pular da cadeira.

Estase em desfrutar de Stasis

Como bom apreciador dos jogos de horror, posso dizer que Stasis foi o único título nos últimos 5 anos (pelo menos) que me deu sustos de verdade — exceto o assustador P.T. (PS4), mas como é apenas um teaser, aí não conta, né? Mais do que isso, o game me prendeu do começo ao fim, me fazendo ter aquela vontade de chegar logo em casa para jogá-lo.

O título está disponível no Steam desde o dia 31 de agosto por R$ 36,79 (20% de desconto de lançamento). Pode parecer um pouco caro para um jogo indie, mas vale cada centavo. Os fãs de point-and-click e de boas tramas de terror vão literalmente entrar em estase com Stasis.

Confira o trailer que demonstra um pouco do gameplay:

Prós

  • História instigante e envolvente;
  • Excelente uso dos elementos de point-and-click;
  • Puzzles criativos, que fazem o jogador quebrar a cabeça (com o perdão do trocadilho);
  • Trilha sonora excepcional;
  • Sustos de verdade.

Contras

  • Gráficos ultrapassados;
  • Dentre as seis línguas disponíveis, o português não está presente.
Stasis — PC — Nota: 9,3

Revisão: Farley Santos
Capa: Diego Migueis
Alveni Lisboa escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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