Jogamos

Análise: Circa Infinity (PC) - meu cérebro dói

E mesmo enlouquecendo, este platformer psicodélico te dará bons momentos


Sofro de vertigem. Fazendo piruetas, quando moleque, subitamente meu estômago virou e nunca mais fiz movimentos bruscos sem ter dores violentas de cabeça e enjoos. No começo achei que era só do momento, mas logo senti que havia um limite de até quando podia rodar, correr e até jogar certas coisas. Preciso parar por alguns minutos depois de andar por muito tempo dentro de uma caverna em Minecraft, por exemplo. Com Circa Infinity e seus loops infindáveis, foi a mesma coisa.

E até mesmo esta sensação foi surpreendente.


As sensações psicodélicas neste indie estão sempre presentes — é como estar dentro de um caleidoscópio, controlando um casal que quer se aprofundar mais e mais nesta viagem com cores, contrastes e criaturas que vieram diretamente de um mundo bizarro e desconhecido para muitos, e que acredito que um psicanalista conseguiria descrever como a materialização de nossos medos, angústias e frustrações.

Freud explica

Os controles são simples — andar, pular e se agachar, e apesar disso, há ainda alguma confusão quando se aperta o botão de ação. E enquanto se progride pelos níveis, a dificuldade fica tão insana quanto as construções dos cenários. É um platformer circular: você sempre estará em um círculo, recheado de demônios chorosos, criaturas nefastas que vão aumentando em quantidade (e movimentos) enquanto se progride.


Minha propensão a passar mal girando loucamente para encontrar uma saída se misturou com a ansiedade, que me dá ataques de raiva toda vez que fazia uma burrada num nível que já havia passado, e que o faz voltar um nível acima toda vez que se morre. Essas repetições são cruéis, mas eventualmente um checkpoint salva o dia.

Há uma mensagem espiritual neste ciclo: os orientais acreditam que nossas vidas não passam de ilusões cíclicas, e aquele que consegue sair dessa espiral rotineira consegue, eventualmente, chegar ao nirvana. O máximo que cheguei foi depois do segundo chefão, e preciso voltar às meditações para voltar a jogar mais.


A trilha sonora, apesar de boa, não acompanha esta jornada espiritual, apelei à The Doors para me sentir mais afundado nas divagações psicodélicas.

Psicorrotação

Rodar pelas fases eventualmente chega a ser enjoativo (não literalmente), sem muita variação na proposta, com exceção das cutscenes jogáveis em linha reta, rápidas demais para serem curtidas. Mas a apreciação das brincadeiras com cores e formas deixa a experiência estranha — numa forma apreciativa do termo. O jogo de contrastes transcende os níveis. Todos os envolvidos mudam de cor quando mudam de nível, criando jogos mentais dignos de uma peça de Escher.

Sobreviver aos inúmeros níveis nos leva aos bosses, todos com um estilo gráfico e puzzles únicos, e o mais divertido: cada vez mais difícil. Descobrir o que o jogo quer que você faça pode levar um tempo, e a sensação sentida ao se morrer é inversamente proporcional à sensação sentida quando se finalmente vence a fase.



Seguir pelos caminhos em roda de Circa Infinity faz pensar não somente em como nosso cérebro age em um desafio, mas em como ele pode facilmente derreter quando a coisa começa a piorar. Inicialmente, há apenas um personagem, e a vida é fácil e simples. Passado os primeiros estágios, o problema dobra: agora são dois personagens, e eles devem, juntos, sobreviver aos demônios de nossos medos, angústias e frustrações. Que ficam mudando de plano, correndo e bloqueando o caminho.

O som de vidro despedaçado em cada falha é como um estímulo negativo para um rato de laboratório num experimento. Mas e quanto aos estímulos positivos? Mais medos, angústias e frustrações?! Um chefão, que diferente dos chefões que costumamos encontrar nesta vida que é ser gamer, ficam em prantos enquanto arremessam demônios e lágrimas em sua direção?


Kenny Sun não apenas fez uma obra de arte de se assistir e interagir. Ele nos faz passar pelos caminhos tortuosos e perturbadores de nossas próprias emoções, frustrando, emocionando e colorindo a cabeça em dezenas de níveis de ira, alegria e alívio. Quando meu cérebro voltar ao lugar, e melhorar da vertigem, continuarei a jogar.

Pontos positivos:

  • Abordagem inovadora;
  • Excelente uso dos contrastes e cores;
  • Arte cativante;
  • Desafiante ao extremo.

Pontos negativos:

  • Não recomendável para pessoas com náuseas.
Circa Infinity — PC — Nota: 9.0
Diego Gomez escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais